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Um lugar para as velhas novas mídias
Na Alemanha, o instituto ZKM propõe soluções para a conservação de obras de arte contemporânea e eletrônica
Por Augusto Paim, de Karlsruhe, Alemanha | texto e fotos
Quando o visitante chega ao balcão para pedir informações, uma luz circular o encontra. Vai-se para o lado, a luz vai junto. Não há como fugir dela. O visitante foi pego. Logo, uma voz fala. As pessoas ao redor não estão prestando atenção. Sim, só ele a ouve.
A cena se passa na cidade de Karlsruhe, na Alemanha, mais especificamente no saguão de entrada do Zentrum für Kunst und Medientechnologie - ZKM (Centro de Arte e Mídia), e a iluminação que sai do teto é apenas a primeira instalação do Medienmuseum, o Museu de Mídia, um dos inúmeros espaços de produção, exposição, conservação e pesquisa de arte contemporânea e eletrônica existentes no prédio. A luz, só para esclarecer, obedece a um sensor de movimento. No teto, a dezenas de metros de altura, uma caixa de som direcional faz com que só a pessoa focada escute a voz em alemão. Não é magia. É ciência. E arte.
Segundo um folheto de divulgação do museu, o lugar foi pensado para proporcionar "uma interação entre homem e obra de arte" e o visitante "não consumirá passivamente os trabalhos expostos". Durante horas, é possível entrar em contato com obras de arte eletrônica apertando botões, mexendo o corpo para ser detectado por um sensor, interagindo com (e não apenas recebendo) áudios e vídeos. Tudo em clima de brincadeira, pois o museu, que conta com uma área de 6.344 metros quadrados, pretende mesmo ser lúdico.
Perambulando pelo local, o público pode parar na sala onde está a obra The Interactive Plant Growing, de Christa Sommerer e Laurent Mignonneau. Lá há cinco vasos com plantas, entre elas um cacto. Ao se encostar nas folhas, uma planta virtual começa a crescer numa tela projetada na parede. Caso alguém resolva arrancar um pedaço do vegetal, por acreditar que ele não seja de fato real, verá que está enganado. Mas de que jeito essas plantas podem sobreviver nessa sala escura? O que há por trás disso tudo?
Tecnologia em preservação
Com o desenvolvimento da arte eletrônica, surgiu a necessidade da existência de media centers, lugares para exposição de obras que utilizam as mídias mais modernas do nosso tempo. O Museu de Mídia do ZKM é um desses media centers do mundo, mas não só isso. Ele é um farol para os demais, pois lá se trabalha com um conceito até então associado a coisas velhas, o conceito da "preservação". Afinal, a arte eletrônica não nasce pensando que um dia vai se tornar velha. "Qualquer pessoa, olhando para obras de arte eletrônica, tecnicamente perfeitas, provavelmente não gaste muito tempo pensando como as futuras gerações poderão compartilhar a mesma experiência", comenta Christiane Fricke, jornalista especializada em arte, em artigo sobre o problema da conservação da arte eletrônica. "A opinião popular parece dizer que tudo que vai para um museu e é reconhecido como uma conquista cultural merecedora de preservação e de acesso público deve ter certa durabilidade." Acontece que as novas tecnologias ficam velhas muito rápido. O que fazer com elas?

Em uma sala do museu, estão reunidas dezenas de aparelhos de vídeo de todas as épocas. Em outra, a coleção é de videogames. Também há muitas outras mídias, que foram altas tecnologias em determinado período e hoje se tornaram lixo. Mas não para o ZKM, que treina continuamente técnicos para operar esses equipamentos, não importa quão arcaicos sejam. Obras de arte que usam mídias ou software que já caíram em desuso são decodificadas para outro formato, mas paralelamente a isso os equipamentos do formato antigo são mantidos.
Uma história dos bastidores do Museu de Mídia conta a situação de um videoartista que usava um projetor antigo em seu trabalho. O uso de um equipamento novo alterava o esquema de cores da obra. A solução foi treinar alguém para consertá-lo e mexer no aparelho. O ZKM faz isso para cada obra nova que chega, conforme a necessidade.
De plantas e de munição
A artista Lenara Verle, doutoranda em arte eletrônica na Universidade de Frankfurt, fez residência por três meses no ZKM, em 2005. Nesse período, teve acesso a todos os setores do centro. Numa sala de convivência, notou diversos vasos de plantas. Algumas estavam um pouco deterioradas, com folhas arrancadas; outras estavam em pleno vigor; outras, ainda, eram apenas brotos. Alguém explicou a Lenara que ali repousavam as plantas usadas em uma obra do Museu de Mídia. Elas descansavam do "trabalho" exaustivo, pois salas escuras não são lugares para vegetais. Outras eram preparadas para substituir as que estavam atualmente na exposição.
O que acontece nessa sala do ZKM é uma metáfora para todas as atividades do centro: nada é jogado fora, nada é descartável, e as atividades de sustentação ocupam um vasto espaço físico e exigem muita energia. Além disso, como se já não bastasse o esforço dispensado em conservação e exposição, o ZKM produz, e muito.
Em 1986, um grupo de políticos e representantes do meio acadêmico e cultural da cidade de Karlsruhe se reuniu com a intenção de fundar um centro de novas mídias. O projeto pensava o centro na forma de três círculos de atuações interconectados: pesquisa e desenvolvimento; evento e disseminação; e educação e suporte. Fundado sob lei pública, a inauguração foi em 1989, com atividades mantidas por verba municipal e estadual e também por terceiros.
Em 1997, o ZKM foi reunido em uma antiga fábrica de munição da Segunda Guerra Mundial. É lá que ele permanece até hoje, com dois museus (o de Mídia e o de Arte Contemporânea), quatro institutos de pesquisa e produção e outras atividades de sustentação e conservação. No prédio também estão a Galeria Municipal e a Faculdade de Design, Mídia e Artes, que não pertencem ao ZKM mas são parceiras em muitos projetos. Hoje, o tripé de valores mudou um pouco, embora siga o espírito inicial: pesquisa e produção; exibições e eventos; e coleções e arquivos.
Um centro descentralizado
O ZKM possui coleções de terceiros, mas também produz por meio dos institutos. O Instituto de Mídias Visuais foi fundado em 1991 e trabalha com o que há de mais moderno em tecnologias de vídeo. Projetos com ambientes imersivos e novas tecnologias de edição são desenvolvidos lá. O Instituto de Cinema produz filmes, preferencialmente documentários e obras filosóficas, em parcerias internacionais. O Instituto de Mídia e Economia realiza eventos para refletir sobre o processo da arte contemporânea em geral. Por meio dele, o ZKM conseguiu trazer filósofos como Guy Debord, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jean Baudrillard e Paul Virilio para discutir arte, mídia e sociedade.
O Instituto de Música e Acústica é responsável por uma construção moderna do lado de fora da antiga fábrica de munição. Nesse espaço, conhecido como Cubo, são feitas apresentações e performances com vídeo e música eletroacústica. Os limites dos espaços tradicionais de execução musical são expandidos por meio de um sistema diferenciado de som: 47 alto-falantes estão dispostos na forma de um globo, de modo que a música chega ao público de várias direções, criando, assim, um ambiente imersivo. "É como se numa orquestra os músicos não ficassem parados, mas, sim, rodando pela sala com seus instrumentos", explica Ludger Brümmer, diretor do instituto.
O ZKM é chamado de centro porque reúne uma série de atividades, não apenas a museologia. Como diz Brümmer: "A maioria dos museus se preocupa apenas com a parte de exposição. Nós também produzimos, conservamos e pesquisamos".
Atualmente, o centro desenvolve o AmaZoneWar. Trata-se de um projeto de videoarte que envolve artistas de várias partes do mundo, inclusive do Brasil. A colaboração é interinstitucional (em parceria com a Bienal de Munique e instituições como Goethe-Institut São Paulo, Ministério da Cultura do Brasil, Petrobras/Cenpes, Sesc-SP e Hutukara Associação Yanomami, de Boa Vista) e também multimídia: o CD do projeto é resultado do trabalho conjunto do Instituto de Música e Acústica e do Instituto de Mídias Visuais. Sem falar que é interdisciplinar, pois a obra se preocupa com o problema da devastação da Amazônia. Afinal, o ZKM nunca vai deixar as plantas serem jogadas fora...