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Mobilização e política educacional

Políticas educacionais: entre a experimentação e a mobilização

Duas décadas e um regime autoritário separam dois momentos-chave para a história da educação: a experiência de Angicos (1963), no Rio Grande do Norte, liderada por Paulo Freire, e o XIV Festival de Inverno de Campos do Jordão (1983), em São Paulo, que teve Ana Mae Barbosa como uma das coordenadoras.

Enquanto Freire voltou-se para a alfabetização de adultos, Ana Mae ampliou e desdobrou suas políticas de letramento em uma educação pela e para a imagem, defendendo ser cada vez mais importante a alfabetização visual para uma decodificação do mundo, posto que boa parte do nosso aprendizado se dá por meio de imagens.

Tais experiências, ambas de grande repercussão, evidenciam a centralidade das políticas públicas nos pensamentos de Paulo Freire e Ana Mae Barbosa, tendo ela participado também da concepção da Semana de Arte e Ensino na Universidade de São Paulo (USP), em 1980, e das Oficinas Culturais de São Paulo, em 1984, iniciativas focadas em políticas pedagógicas e culturais.

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Semana de Arte e Ensino da USP

A Semana de Arte e Ensino, realizada de 15 a 19 de setembro de 1980, na Escola de  Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/ USP), foi coordenada por Ana Mae Barbosa e envolveu cerca de 3 mil participantes de todo o país, incluindo educadores, estudantes e artistas. Com uma programação de debates, oficinas e intervenções, tornou-se central para a reorganização sociopolítica dos profissionais da educação artística durante a redemocratização.

Relatores sintetizaram os debates e distribuíram cópias mimeografadas dos tópicos discutidos, que se espalharam pelo país e ajudaram a unificar as lutas da arte-educação.

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A Semana de Arte e Ensino

Ana Mae percorre a história da Semana de Arte e Ensino, realizada na Universidade de São Paulo (USP) em 1980, uma das mais importantes iniciativas para a consolidação da arte-educação no país.

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“Organizei a Semana como o primeiro congresso político de arte-educação no Brasil. De lá, surgiu a Associação de Arte-Educadores de São Paulo (Aesp), a primeira associação autóctone do país. Antes, havia apenas uma filial da Sociedade Internacional de Educação pela Arte (InSEA), dominada por uma pessoa ligada à ditadura, que foi fechada nos anos 1980.
A Aesp, criada em 1984, serviu de modelo para as associações estaduais e para a Federação de Arte/Educadores do Brasil (Faeb). Tenho orgulho de ter participado da criação de várias dessas associações”.

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Ana Mae no IV Congresso Nacional da Federação de Arte/Educadores do Brasil (Confaeb), realizado na cidade de Porto Alegre (RS), 1991 | Acervo Ana Mae Barbosa

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Conferência de abertura com Paulo Freire

A convite de Ana Mae Barbosa, Paulo Freire, recém-retornado do exílio, fez a conferência de abertura da Semana de Arte e Ensino na Universidade de São Paulo (USP) para um auditório lotado – o que exigiu, aliás, a transmissão do evento em tempo real para um segundo espaço no câmpus. Provocado por Ana e pelo poeta Haroldo de Campos, ele intitulou sua fala “O retrato do pai pelos jovens artistas”.

A transcrição dessa conferência, perdida por décadas, foi encontrada durante as pesquisas para esta mostra, e está disponível na publicação da Ocupação Ana Mae Barbosa, disponível abaixo. Na introdução, Freire fala sobre a amizade com a educadora, lembrando o tempo em que ela era sua aluna curiosa.

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O retrato do pai pelos jovens artistas

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Arte-educação como epistemologia da arte

Na década de 1950, a prática artística na educação estimulava sobretudo uma manifestação do universo íntimo, tendo como função primordial permitir a “livre expressão” das crianças, sem a “influência” de referências ou reflexões histórico-analíticas. Em sua carreira, Ana Mae Barbosa revisou criticamente esse paradigma, em diálogo com teorias pós-modernas e movimentos sociais.

Como revelam seus mais de 30 livros, ela desenvolveu outras abordagens e sentidos para a arte-educação, dentro e fora do ensino formal. Sua produção aponta para o ensino de artes como forma de alfabetização, produção de conhecimento, exercício cognitivo, mediação cultural e instrumento político. Em contato com a diversidade cultural, étnico-racial e de gênero, Ana Mae ampliou e aprofundou suas perspectivas, reafirmando a arte-educação como uma epistemologia da própria arte.

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A cronologia da dependência

Ana Mae explica a noção de cronologia da dependência, conceito desdobrado em um artigo escrito em 1974 (texto, aliás, derivado da tese de doutorado de Ana, estudo que aborda a arte e a dependência cultural). A cronologia discute a história do ensino de arte no Brasil, com ênfase na dependência cultural do país em relação a modelos estrangeiros, destacando a necessidade de um ensino mais autônomo, contextualizado e crítico.

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O festival e o debate público

O XIV Festival de Campos do Jordão (SP) aconteceu em 1983 e foi considerado polêmico em razão de mudanças propostas pelas organizadoras, Cláudia Toni, Gláucia Amaral e Ana Mae Barbosa. Procurando democratizar o evento, elas adicionaram ao tradicional calendário de concertos um percurso formativo para arte-educadores, com o objetivo de apoiar a prática docente de professores de educação artística. Foram 400 vagas, sendo 300 com bolsas que cobriam hospedagem e alimentação nas duas semanas de evento. O resultado foi uma ampliação do público e das suas referências culturais, com shows e atividades lúdicas que colocaram o festival “na boca do povo”, gerando debates entre aqueles que atacavam um suposto caráter populista e a perda de “excelência artística” e aqueles que destacavam a importância política de integrar a arte e o processo educativo visando à transformação social.

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O Festival de Campos do Jordão

A especialista em políticas públicas para a cultura Claudia Toni e nossa homenageada Ana Mae contam a história da 14ª edição do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Organizada por Claudia, Ana e Glaucia Amaral, e em contraste com a tradição do festival até então, a edição realizada em 1983 teve como foco a formação de professores de artes do estado de São Paulo.

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Ana Mae Barbosa, 2025 | imagem: André Seiti

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Representação, identidade e presença

Ana Mae Barbosa é uma das principais articuladoras da luta pela arte-educação, batalhando incansavelmente pela valorização do ensino e pelo direito a uma educação de qualidade para educadores e educandos.

Ela fundou e atuou em organizações como a Associação de Arte-Educadores de São Paulo, a Sociedade Internacional de Educação pela Arte (InSEA), a Federação de Arte/Educadores do Brasil, o Conselho Latino-Americano de Educação pela Arte, a Sociedade Brasileira de Educação

Através da Arte e a Associação Nordestina de Arte-Educadores, realizando pesquisas e conferências em todos os continentes.

Nesse processo de representação e presença, Ana reinventou sua própria identidade no contato com a diversidade cultural, o que culminou na interculturalidade, noção central para a sua prática a partir dos anos 1990 e que se reflete simbolicamente em seus colares.

 

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Os colares de Ana Mae

Podemos testemunhar a construção identitária de Ana Mae Barbosa por meio de seus colares, objetos biografáveis a partir dos quais se deixam entrever viagens, experiências e, sobretudo, o aprendizado intercultural que marcou sua vida e obra. Cuidadosamente colecionados por Ana (que usa todos eles, sem exceção), os colares revelam seu interesse pessoal, estético e afetivo pela diversidade cultural, reafirmando, em seu próprio corpo, a pluralidade de saberes, visualidades e tecnologias do mundo. Muitas delas ganhadas de presente de colegas ao longo de sua trajetória, as peças são também uma evidência das relações afetivas construídas pela professora em sete décadas de trabalho.

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