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Essa gunga vai girá

Leda durante a festa do Reinado da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá, 2024 | foto: Murilo Alvesso

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O Reinado é uma escola

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A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá

Em 2024, a equipe do Itaú Cultural acompanhou parte das cerimônias das festividades do Reinado da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá. Abaixo, você confere um pouco das cores, instrumentos, vestimentas e objetos desta tradição cultural e religiosa.

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Encruzilhada | Videoguia em Libras

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"Escritora revela um reino banto no Jatobá", de Ricardo Aleixo

Artigo “Escritora revela um reino banto no Jatobá”, escrito por Ricardo Aleixo para o jornal O Tempo, Belo Horizonte, 1997

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Conhecendo o Reinado

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Carta de Edimilson de Almeida Pereira, 1992

Carta do escritor Edimilson de Almeida Pereira falando de sua experiência como Rei Festeiro da Comunidade dos Arturos e da tese de Leda sobre o Reinado, 1992

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A tradição do Reinado: história e resistência da Comunidade Quilombola dos Arturos

por Juliana Ribeiro

Foi na fazenda de um povoado chamado Mata do Macuco, em Santa Quitéria – cidade hoje conhecida como Esmeralda –, em Minas Gerais, que surgiu a comunidade dos Arturos. Para entender melhor essa história, é preciso voltar no tempo, lá em meados do século XIX, quando um homem chamado Camilo trabalhava como tropeiro e também na exploração de esmeraldas, ouro e diamantes. Foi no mesmo local que nasceu o seu sexto filho, Artur Camilo Silvério, figura central nesta narrativa.

Em 1888, quando Artur tinha apenas 3 anos, Camilo, um escravo alforriado, adquiriu a propriedade onde, mais tarde, o filho iniciaria a transmissão de saberes – inclusive, a primeira tradição que aprendeu com o pai foi sobre o reinado, que permanece viva até hoje. Artur casou-se com Carmelinda, tiveram dez filhos e, juntos, fundaram a Comunidade Quilombola dos Arturos, que atualmente se encontra em sua sétima geração e com quase 700 pessoas.

Conhecer o início desta história é fundamental para entender um pouco mais sobre o reinado e como ele se entrelaça com a trajetória de um povo. Quem sabe muito de toda essa jornada é Jorge Antônio dos Santos, morador da comunidade dos Arturos e capitão da Guarda de Moçambique da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário em Contagem (MG).

Nesta entrevista, ele compartilha suas experiências e explica como mantém viva essa tradição nos tempos atuais. “Minha formação é mesmo da comunidade, da vivência, do conhecimento. Graças a Deus, tivemos a luz da nossa ancestralidade, a luz dos nossos sagrados que me conduziram a ser a pessoa que sou hoje. Nosso legado é o compartilhamento”, afirma.

Confira na íntegra.

Para começar, poderia contar um pouco sobre o surgimento da Comunidade Quilombola dos Arturos?

A comunidade surgiu em 1885, ou seja, três anos antes da abolição da escravatura, por meio do negro Artur Camilo Silvério, que nasceu dentro da Lei do Ventre Livre, porém ainda diante de toda a opressão e de todas as questões negativas que a escravidão trouxe no país. A primeira tradição que o pai [Camilo] passou para o filho [Artur] foi sobre o reinado, o congado. Artur saiu desse povoado para participar da festa da Nossa Senhora do Rosário em Contagem, onde já existia uma igreja construída pelos escravizados em 1834. Em 1867, foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, também em Contagem, e ele começou a participar das festividades.

Com o tempo, formou um grupo de congado junto com seu pai. Eles saíam lá da Mata do Macuco para vir para Contagem realizar as celebrações. Além do congado, Camilo transmitiu a Artur outras manifestações culturais, como o candombe – considerado o pai do reinado – e, depois, o reinado em si, além do batuque, da festa do João do Mato e da Folia de Reis, que foi implantada bem depois. Foi por volta de 1900 que a comunidade começou a crescer.

No final da década de 1950, os Arturos migraram da Mata do Macuco para o local onde, hoje, está situada a Comunidade Quilombola dos Arturos, no qual se viu o crescimento familiar, a transmissão dos saberes e a preservação das festas tradicionais. Foi assim que começou essa história.

Você citou o candombe e disse que ele é considerado o pai do reinado. O que é exatamente o candombe?

Não posso falar de congado sem antes falar daquilo que consideramos o pai do reinado em Minas: o candombe. A comunidade preserva o ritual do candombe, que é de origem banto, no qual os autores são originários, são descendentes. Na África, o candombe era realizado pelos reinados africanos. É um ritual realizado com tambores sagrados e, em cada região, tem diferenças. Aqui, o nosso é composto de três tambores que consideramos sagrados: o maior tem o nome de Santana; o do meio, Santaninha; e o menor, Jeremias – nomes escolhidos por Camilo.

O candombe é um momento de reflexão e de conexão entre nós e a ancestralidade. É também um momento de conexão com os elementos da natureza e com o sagrado de origem afro. Hoje, os reinados e congados são discípulos do candombe, porque, no princípio, não existia congado – era o candombe. Com o tempo, as coisas foram mudando, como o formato dos tambores, que, em vez de manterem o formato de pilão, passaram a ter o formato de caixas de congado.

Existe um livro do professor Saulo Martins que fala sobre a “família dos sete irmãos”, que representa os sete tipos de grupo de congado diferentes: o candombe, o congo, o moçambique, a marujada, os catopês, os cavaleiros de São Jorge e o veludo. Esses são os principais e formam a família dos reinadeiros e congadeiros, e todos de origem afro. O que fazemos nos grupos de congado é cantar e contar a nossa história, a grande viagem da África para o Brasil e toda essa dificuldade que foi o processo de escravidão e a resistência por meio da fé.

Na sua comunidade há dois tipos de grupo de congado, o congo e o moçambique, certo? Pode falar um pouco sobre a diferença entre eles?

O congo tem um ritmo mais acelerado e é formado principalmente pela juventude, enquanto o moçambique tem um ritmo mais lento e mais pesado, com pessoas de maior idade, responsáveis por conduzir o reinado. Quanto às cores, escolhemos o rosa, o azul e o branco, que são cores das vestes de Nossa Senhora do Rosário. Essas cores se tornaram padrão da nossa comunidade: o grupo congo se veste de branco e rosa, e o moçambique, de azul e branco.

A escolha dos instrumentos tem um significado, certo? Não é uma escolha aleatória. Pode falar um pouco sobre isso?

Hoje, o grupo de moçambique utiliza como instrumentos as caixas de reinado, os gungas e os patangomes. Já o grupo de congo utiliza as caixas e o tamborim. Esses instrumentos têm, sim, um significado. Na verdade, tudo que é utilizado nos grupos de congado tem uma origem: os tambores de candombe são discípulos dos tambores africanos, e as caixas são discípulos de tambores de candombe.

Com a questão do deslocamento dos grupos, foi preciso simplificar um pouco, porque os tambores de candombe são bem mais pesados e maiores, e as caixas de antigamente eram feitas de madeira e couro. Hoje, os instrumentos são produzidos com material industrializado, mas dentro de toda essa origem que dá continuidade ao sagrado.

Os patangomes, usados no moçambique, são oriundos do trabalho do garimpo. É o negro trabalhando com aquelas peneiras, com a bateia para peneirar o ouro, e dali retirava-se um som. Depois, fizeram uns patangomes com palha da costa, feitos de bambu. Com o tempo, passou-se a utilizar o aço inox, e hoje é o que se usa nos patangomes.

Já os gungas nos pés representam os guizos que eram usados pelos africanos para compor os ritmos. Representam também o negro acorrentado e os sinos usados na África. No congo, o tamborim é da mesma origem das caixas do tambor, e o reco-reco é de origem de um instrumento chamado macumba, feito de madeira ou de bambu. Por isso ficou essa lenda de que, quando o negro está diante de qualquer manifestação – seja um tambor de candombe, de capoeira, de terreiro de matriz africana ou os tambores de reinado –, tudo seria macumba. As pessoas foram colocando a nossa história pejorativamente diante das oferendas que eram feitas para as nossas divindades, e tudo isso foi generalizado como macumba.

Alguns objetos sagrados fazem parte do reinado. Pode falar sobre eles e se são comuns em todos os reinados?

Para nós, reinadeiros, tudo que utilizamos, vivemos e fazemos é sagrado, a começar pelos nossos três tambores de candombe, que, segundo histórico de nossos mais velhos, têm mais de 200 anos. Temos, ainda, imagens que são da época de Camilo, ou seja, com mais de 130 anos de existência. Imagens de santos, espadas usadas pelos guardiões da coroa e as próprias coroas do reinado – algumas são centenárias –, além dos bastões de comando. Esse é o nosso maior patrimônio, é o que está na nossa capela. E por que tudo é sagrado? Porque faz parte da história de um povo sofrido, dos nossos mais velhos, da nossa ancestralidade, de quem veio de África e aqui foi escravizado, que sofreu, mas resistiu e preservou todo esse patrimônio cultural que temos hoje.

E como é o grande encontro das guardas na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá?

Esse encontro é uma forma de confraternização e de fortalecimento dos nossos povos – ficamos por muitos anos na unanimidade porque era tudo proibido. Antigamente, congadeiro chegou a ser preso porque incomodava os senhores, os brancos, a igreja; congadeiro não podia participar das missas, não podia manifestar a sua religião, a sua fé e devoção. Daí começou um congadeiro ajudar o outro a fazer a festa, e dessa forma é que teve início ativamente essa questão da irmandade, sendo uma comunhão de irmãos.

A irmandade do Jatobá é “irmã” da irmandade da comunidade dos Arturos, porque os nossos mais velhos, antigamente, faziam as festas e os irmãos do Jatobá vinham para ajudar. Não existiam grupos separados, mas um só grupo, era todo mundo em Arturos, todo mundo no Jatobá, todo mundo em Justinópolis, e assim em diversos municípios do estado. Até que, com o passar do tempo, essas comunidades foram crescendo, os familiares aumentando e, dessa forma, começaram a compor os grupos. Primeiro, os de congado e, mais adiante, as irmandades. Com a criação dos reinados, houve a necessidade de os grupos criarem uma data específica de suas festividades para dar condições de um ir à festa do outro. Dessa forma, nasceu esse monte de grupos de congado que há no estado de Minas, onde a maioria confraterniza entre si.

Você contou aqui que o reinado é uma tradição passada por gerações. Como é manter isso vivo atualmente? Os jovens se interessam em participar?

Esse mundo moderno acaba interferindo na preservação da juventude das nossas tradições. É muito mais difícil preservar hoje, e nós procuramos encontrar meios para fortalecer essa juventude. Aqui na comunidade, começamos a trabalhar com essa nova geração de forma diferente. Os nossos jovens estão no mundo da tecnologia – que é a nossa grande ameaça atualmente –, mas como usar isso em prol da preservação das nossas tradições culturais? Foi aí que começamos a desenvolver algumas ações com as nossas crianças, jovens e adolescentes, como o grupo artístico Arturo Filhos de Zambi, no qual trabalhamos a transmissão dos saberes. Buscamos a formação – cursos e oficinas de aprendizado – para proporcionar a eles uma maneira diferente de aprendizado das nossas manifestações, trabalhando também a autoestima e fazendo com que eles se sintam valorizados.

Quando iniciamos havia preconceito e discriminação, mas, ao longo do tempo, fomos revertendo isso. A gente levava a nossa história primeiro para os professores que recebíamos na comunidade. Também íamos às escolas para compartilhar com eles, falar sobre as práticas de nossas manifestações tradicionais até chegar aos alunos, que passaram a ter outro olhar sobre os jovens da comunidade, que, por sua vez, passaram a se sentir mais valorizados.

O que acontecia lá no princípio era “Olha o negrinho dos Arturos”, “Olha o negrinho de saia”, “Olha o negrinho macumbeiro”, mas, com o passar do tempo, com os Arturos sendo pesquisados e publicados em diversos livros, sendo apresentados na mídia, viajando para vários outros estados do Brasil e para fora do país, tudo isso melhorou a autoestima dessa juventude. Trabalhamos com esses jovens para transmitir quem eles são, de onde vieram e para onde eles vão e, dessa forma, conseguimos manter ativamente nas manifestações tradicionais da comunidade de 80% a 90% das crianças, jovens e adolescentes.

Sabemos que Leda Maria Martins é parte importante do reinado, no qual é a rainha de Nossa Senhora das Mercês. Além disso, atualmente ela é homenageada no programa Ocupação Itaú Cultural. O que diria sobre ela?

Leda é uma guerreira em todos os sentidos. Por ser mulher, por ser negra, por ser de uma comunidade tradicional, por ser rainha e fazer parte de um reinado, é uma guerreira para se formar e chegar aonde chegou na academia, na área da educação. Sou uma pessoa que analisa muito tudo ao meu redor e, às vezes, fico pensando como uma mulher consegue viver a vida que ela vive, ser rainha de um grande reinado, de uma grande comunidade, e ainda ser professora de uma das maiores universidades do Brasil, a UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais]. Ela representa a nossa cultura, não só no nosso estado, mas no mundo todo, e isso sendo mulher negra. É uma guerreira abençoada por Deus. Essa é a nossa Leda.

Por fim, se alguém lhe perguntasse o que é ser reinadeiro, qual seria a sua resposta?

A minha vida, que se divide em três partes: a matéria, que é o meu corpo, o espírito que conduz esse corpo, e o fato de ser reinadeiro. Eu nasci no congado e tenho a lembrança da minha avó e dos mais velhos me carregando no colo nas festividades. Lembro bem de quando a gente saía com o reinado à noite. Às vezes dava sono e a gente cochilava aos pés da minha avó. No reinado, sempre tive interesse em prestar atenção em tudo, sempre respeitando os mais velhos. Com a participação nas atividades tradicionais da comunidade é que pude conhecer e aprender tudo o que ela vive e preserva para hoje ter esse legado. É uma honra fazer parte da liderança da comunidade.

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Leda e a Irmandade de Nossa Senhora do Jatobá

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