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CineAula IC Play 2026 #4: Escutar o povo, filmar o Brasil

Gosta de cinema e samba? Pois este material é para você! O objeto desta sequência didática é “Partido alto”, de Leon Hirszman

Publicado em 08/06/2026

Atualizado às 11:12 de 05/06/2026

CineAula IC Play – 2a edição
Luz, câmera, educAção: 
o streaming gratuito do cinema brasileiro na sala de aula

por Juliana Marra

Sequência didática #4: Escutar o povo, filmar o Brasil

Ficha técnica

Título: Partido alto
Ano de produção/lançamento: filmado em 1976 e lançado em 1982
Direção: Leon Hirszman
Estado: Rio de Janeiro
Classificação indicativa: livre
Gênero: documentário
Narração: Paulinho da Viola
Duração: 22 minutos
Produção: Embrafilme
Fotografia: Leon Hirszman e Lúcio Kodato
Montagem: Alain Fresnot
Sinopse: Partido alto, curta documental dirigido por Leon Hirszman, apresenta a vertente do samba homônima, marcada pela improvisação e pelo canto coletivo em roda. O filme acompanha sambistas como Candeia, Manacéa e Paulinho da Viola, registrando encontros em que a música nasce da comunidade, da convivência e da troca de versos. Sem narrativa linear, o documentário privilegia a escuta, a oralidade e a espontaneidade, revelando o samba como prática cultural viva. Mais do que um registro musical, a obra afirma o samba como expressão de memória, identidade, resistência cultural e pertencimento social.

I. CARTA AO PROFESSOR – O PODER DAS MEMÓRIAS NA EDUCAÇÃO

Caro professor e cara professora,

Após apresentar a primeira edição do CineAula IC Play, estamos de volta com a segunda etapa desta ação que busca aproximações entre a linguagem cinematográfica e a educação básica. Mais que isso, seguimos firmes com a proposta de estimular a arte e a cultura no ensino formal, sobretudo o letramento audiovisual da sociedade brasileira. A iniciativa oferece, por meio das cineaulas, ferramentas para a aplicação da Lei no 13.006/2014, que enfatiza e obriga a exibição de filmes brasileiros nas escolas básicas.

Assim, as atividades são desenvolvidas a partir da exibição de curtas-metragens e de sequências didáticas pautadas por estes, o que viabiliza o trabalho dos professores nas mais diversas realidades de ensino do país. Neste ponto, também é importante ressaltar que a IC Play, plataforma de streaming gratuita do Itaú Cultural (IC), tem como foco a valorização do cinema nacional.

Adentramos na apresentação do curta-metragem que fundamenta esta sequência didática, priorizando, ainda, a fruição estética e crítica como direito e componente fundamental do processo formativo dos estudantes e cidadãos. Partido alto (1976-1982) é um documentário brasileiro dirigido, escrito e produzido por Leon Hirszman (1937-1987), com duração de 22 minutos. Hirszman foi um cineasta essencial e fundante do Cinema Novo brasileiro, movimento que representou a descolonização do cinema entre os anos de 1960 e 1970, com temáticas que enfocavam os problemas do povo brasileiro. Foi considerado o cineasta mais politizado do movimento cinematográfico nacional e conhecido por obras de forte viés social, bem como por sua militância política na esquerda brasileira desde muito jovem. Também foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1961/1962, tornando-se o responsável pela área de cinema.

O que é relevante destacar, neste contexto da história do Brasil, é a ligação íntima entre a expressão política, a artística e a científica – especialmente nos anos 1960 –, que conduzia os jovens engajados a militarem no cinema e em outras artes, bem como em universidades e partidos políticos (Ridenti, 2000, p. 92-93). Dessa forma, a relação entre estética e crítica no documentário Partido alto e nas propostas da Lei nº 13.006/2014 soa quase metalinguística. Mesmo tendo sido realizado no período de abertura do regime ditatorial, é possível dizer que o documentário traz essa busca inerente pela identidade nacional típica do Cinema Novo ao retratar e registrar a música e a cultura popular das periferias cariocas com raízes nordestinas.

A imagem traz músicos conversando em uma roda, todos em pé. Muitos vestem camisas brancas ou azuis. Um deles é Paulinho da Viola.
Partido alto, de Leon Hirszman | imagem: divulgação

O curta é, portanto, uma homenagem ao samba, mais especificamente ao subgênero partido-alto, com raízes profundas na batucada baiana, na qual, em semelhança ao repente nordestino ou às trocas de versos em rodas de samba nas periferias cariocas, a improvisação vocal é protagonista. Tudo isso é explicado no próprio documentário através de depoimentos e performances de mestres vivos do samba (na época de gravação), das músicas, dos cantos e improvisos presentes no filme e nas próprias escolhas artísticas e narrativas do diretor – sendo esta complexidade inclusive uma das hipóteses apontadas para o lançamento tardio do filme, bem como razões financeiras.

No entanto, antes de embarcarmos na musicalidade e na cultura brasileiras propiciadas pelos registros e pela linguagem audiovisual de Partido alto, cumpre destacar alguns aspectos de nossa abordagem pedagógica. Ressalta-se que o filme dialoga profundamente com o pensamento de Paulo Freire, especialmente com a ideia de que o conhecimento não é algo pronto que se transmite de cima para baixo, mas algo que se constrói coletivamente, com base na experiência e na cultura das pessoas. No curta, o saber não está concentrado em um especialista ou narrador autoritário. Ele surge da roda, do encontro entre os sambistas, do diálogo, da escuta e da improvisação – elementos centrais também da pedagogia freireana. Assim como na educação defendida por Freire (2011, 2013, 2022), todos ensinam e todos aprendem.

A oralidade presente no partido-alto também se relaciona com a valorização dos saberes populares, os quais Freire considerava fundamentais para uma educação libertadora, ecoando os ideais do Cinema Novo e do CPC – este fortemente influenciado pelo Movimento de Cultura Popular (MCP), do qual o educador foi um dos fundadores. O filme reconhece o samba como conhecimento legítimo, produzido historicamente pela população negra e pelas classes populares, rompendo com a ideia de que apenas o saber acadêmico é válido.

Além disso, o documentário mostra a cultura como forma de resistência. Ao registrar uma prática que se mantém viva fora dos circuitos comerciais, Partido alto afirma a importância da identidade cultural e da consciência coletiva – aspectos que Freire associava ao processo de conscientização e transformação social. Dessa forma, o curta pode ser trabalhado em sala de aula como um exemplo de educação baseada no diálogo, no respeito à cultura dos estudantes e na compreensão de que aprender também é reconhecer a própria história e o próprio lugar no mundo.

Outro aspecto pedagógico importante é que, embora esta sequência didática tenha sido elaborada visando à sua replicação em turmas do Ensino Médio, a linguagem do filme e sua classificação livre permitem a adaptação da atividade a outras etapas da educação. Sobretudo a música e o improviso, temáticas centrais do filme, encontram ressonância em todas as faixas etárias e gerações, com suas transformações intrínsecas, certamente, mas sempre confluindo no ritmo e no contexto de cada turma, grupo ou indivíduo. É importante lembrar que, enquanto o cinema é considerado a sétima arte, a música sempre foi a primeira.

Partamos, então, para as rodas de partido-alto dos anos 1970! Abramos a roda e iniciemos a sessão!

A imagem mostra um sambista tocando prato. A foto enfoca as mãos do artista, uma segurando o prato e a outra manejando uma faca.
Partido alto, de Leon Hirszman | imagem: divulgação

II. PLANO-SEQUÊNCIA

a) Luz – Saberes em roda: antes de olhar, ouvir

Objetivos

Mobilizar os conhecimentos prévios dos estudantes sobre música, cultura popular, improvisação, oralidade e identidade, criando curiosidade e vínculo antes da exibição do filme. Busca-se compreender a linguagem como construção histórica e cultural, valorizando as manifestações artísticas e incentivando práticas de escuta, diálogo e produção coletiva de sentidos. As atividades iniciais priorizam a oralidade e a escuta sensível, reconhecendo os saberes prévios dos estudantes e promovendo uma abordagem dialógica, em consonância com uma perspectiva freireana de educação.

Habilidades da BNCC

(EM13LGG101) Compreender e analisar processos de produção e circulação de discursos, nas diferentes linguagens, para fazer escolhas fundamentadas em função de interesses pessoais e coletivos.

(EM13LGG104) Utilizar as diferentes linguagens, levando em conta seus funcionamentos, para a compreensão e produção de textos e discursos em diversos campos de atuação social.

(EM13LGG301) Participar de processos de produção individual e colaborativa em diferentes linguagens (artísticas, corporais e verbais), levando em conta suas formas e seus funcionamentos, para produzir sentidos em diferentes contextos.

(EM13LGG602) Fruir e apreciar esteticamente diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, assim como delas participar, de modo a aguçar continuamente a sensibilidade, a imaginação e a criatividade.

Mãos à obra

Partindo da premissa freireana de que o conhecimento nasce da experiência sensível do estudante, e não da mera explicação do professor, iniciem a atividade ouvindo antes de ver. Se possível, comece a criar o clima de “roda de partido-alto”, solicitando aos estudantes que organizem a sala em círculo. Então, coloque para tocar um trecho de uma música de partido-alto, já selecionada anteriormente (sem mostrar imagens do filme nem dizer o nome ou o gênero do curta). É possível propor algumas questões aos estudantes, como:

- O que vocês sentiram ao ouvir essa música?
- Parece algo ensaiado ou improvisado? Por quê?
- Dá a impressão de ser uma música tocada de modo sozinho ou em grupo?
- Notaram algo de conversa ou diálogo na voz e nos instrumentos?
- Onde vocês imaginam que essa música está sendo tocada?

Na sequência, parta para a mobilização dos saberes populares e específicos dos estudantes. Neste ponto, importa valorizar o saber de experiência (Larrosa, 2002), reconhecendo que os estudantes já chegam à escola com repertórios culturais legítimos. Então, ainda sem apresentar o filme, questione:

- Onde aprendemos músicas, danças ou formas de falar que não estão nos livros?
- Quem nos ensina essas coisas? (Família, amigos, comunidade, internet?)
- Essas aprendizagens costumam ser valorizadas na escola? Por quê?

Enquanto os estudantes vão se expressando e a turma se articulando, registre palavras-chave no quadro (ex.: roda, família, rua, igreja, festa, comunidade, internet).

Finalmente, proponha uma reflexão curta e leve:

- O que é improvisar?
- Improvisar é bagunça ou é criação?
- Onde o improviso aparece na vida de vocês? (Conversas, memes, rimas, jogos, esportes, músicas etc.)

Aqui, a ideia que se deve buscar construir com a turma é a do improviso como prática de diálogo, escuta e resposta – e não como falta de conhecimento, mas como produção coletiva de sentido. Se o clima permitir, pode-se fazer um miniexercício oral: um estudante diz uma frase simples, outro continua e outro responde. Sem corrigir, sem avaliar, apenas experimentando o fluxo.

Finalize, então, dizendo à turma que o filme ao qual eles irão assistir nasce exatamente deste lugar: da escuta, da roda, do improviso da cultura que cria e ensina, pois gera comunidade (Freire, 2022; hooks, 2021).

b) Câmera – Pedagogia do ver: imagem, som e contexto

Objetivos

Desenvolver a leitura crítica e sensível do documentário Partido alto, levando os estudantes a compreenderem o filme como uma produção audiovisual, histórica e cultural, e não apenas como um registro informativo. Além de promover a análise das relações entre imagem, som, música e oralidade, este momento pretende contextualizar historicamente a obra, situando-a no Brasil das décadas de 1970 e 1980, período marcado pelo fim da ditadura civil-militar e pela afirmação de práticas culturais populares produzidas nas margens da cultura dominante.

Ao trazer o diretor Leon Hirszman como personagem histórico, o objetivo é compreender o cinema como prática política e cultural, capaz de intervir na realidade social ao dar visibilidade a vozes, saberes e manifestações tradicionalmente marginalizados. O exercício de plano comentado visa estimular a observação atenta, a interpretação crítica e a expressão reflexiva dos estudantes, incentivando-os a analisar como o cinema pode representar práticas culturais baseadas no improviso sem engessá-las. Dessa forma, busca-se fortalecer a compreensão do audiovisual como linguagem e como forma de produção de conhecimento.

Habilidades da BNCC

(EM13LGG103) Analisar o funcionamento das linguagens, para interpretar e produzir criticamente discursos em textos de diversas semioses (visuais, verbais, sonoras, gestuais).

(EM13LGG202) Analisar interesses, relações de poder e perspectivas de mundo nos discursos das diversas práticas de linguagem (artísticas, corporais e verbais), compreendendo criticamente o modo como circulam, constituem-se e (re)produzem significação e ideologias.

(EM13LGG601) Apropriar-se do patrimônio artístico de diferentes tempos e lugares, compreendendo a sua diversidade, bem como os processos de legitimação das manifestações artísticas na sociedade, desenvolvendo visão crítica e histórica.

(EM13CHS602) Identificar e caracterizar a presença do paternalismo, do autoritarismo e do populismo na política, na sociedade e nas culturas brasileira e latino-americana, em períodos ditatoriais e democráticos, relacionando-os com as formas de organização e de articulação das sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e da promoção da democracia, da cidadania e dos direitos humanos na sociedade atual.

Mãos à obra

Antes da exibição de Partido alto, é interessante afinar o olhar dos estudantes. Sem explicar demais, aponte que não se trata de um filme tradicional, com história, personagens e conflitos. É um documentário que se constrói pela música, pela escuta e pela observação. Pontue, principalmente, que atentem não apenas ao que é dito, mas a como o filme escolhe mostrar isso.

Ao assistirem ao curta, é importante que evitem ao máximo interrupções. A experiência contínua respeita o ritmo do samba e do improviso, além do próprio cinema; então, oriente a turma em relação a isso.

Após a exibição, vale realizar uma breve contextualização histórica, sempre de forma dialógica, evitando o excesso de exposição. Importa ter em vista que o filme foi feito nos anos 1970 e finalizado no início dos anos 1980, portanto, quando o Brasil estava saindo de um longo período de ditadura civil-militar. Nesse sentido, o samba, a oralidade e a cultura popular aparecem como formas de existência, memória e resistência, mesmo sem haver discurso político direto. Algumas questões podem ser disparadoras para que a turma chegue a essas reflexões:

- Que tipo de cultura aparece neste filme? Ela está no “centro” ou nas margens?
- Quem são os protagonistas? São pessoas famosas ou desconhecidas?
- Seria comum exibir esse filme na televisão, o principal meio de comunicação da época? Por quê?

A contextualização histórica da obra, por sua vez, permite adentrar na figura do diretor, Leon Hirszman, também como personagem histórico, o que é muito importante para a compreensão da produção e do filme em si. Questões como “Que escolhas o diretor fez?” e “O que ele decidiu mostrar ou não?” permitem esclarecer não apenas que o documentário funciona como um ensaio audiovisual – em que som, imagem e tempo constroem sentido juntos, sem uma narração autoritária ou roteiro fechado –, mas também que, mesmo invisível, o diretor está presente nas escolhas de enquadramento, tempo, escuta e respeito ao improviso.

Neste ponto, é importante contar minimamente aos estudantes que Hirszman foi um cineasta ligado ao Cinema Novo, militante comunista e cultural e que acreditava no cinema como ferramenta de leitura crítica e transformação da realidade. Caso seja conveniente, aqui tem-se uma grande possibilidade de abordagem multidisciplinar, permitindo o aprofundamento nos estudos de ciências humanas e sociais aplicadas, principalmente em temas da história recente do Brasil. Pode-se considerar, inclusive, o trabalho em parceria com professores dessas áreas específicas.

Contudo, mantendo-se mais fiel à abordagem cinematográfica, interessa aqui que a turma apreenda que o filme é um ensaio audiovisual com aspectos antropológicos evidenciados na narrativa e na gravação. Para tanto, proponha aos estudantes que realizem um exercício de plano comentado. De acordo com o Manual de creación cinematográfica Programa Escuela al Cine (Cáceres, 2020, p. 52), “um plano comentado é exatamente o que diz a palavra”. Assim, o exercício poderá ser adaptado à realidade da turma e ao tempo disponível para sua realização, podendo ser realizado em dupla ou pequenos grupos e tendo como produto final um texto ou respostas guiadas por perguntas, mas o ideal é que os grupos/duplas possam projetar o plano à turma e então comentá-lo em formato de apresentação. Nesse sentido, o manual orienta:

1. Os grupos (ou pares) devem escolher algum plano do filme e anotar onde ele começa e onde termina. O professor também pode optar por realizar essa divisão anteriormente e transmiti-la aos grupos.

2. Os estudantes devem observar o fragmento selecionado e anotar os elementos que chamam sua atenção, descrevendo os que observam no plano, como o som, o ritmo do movimento, as cores, os diálogos (ou explicações) e o que mais parecer importante, em ordem de aparição. Aqui os grupos poderão utilizar um aparelho celular para analisar o plano, observando as determinações da Lei nº 15.100/2025, que autoriza o uso de aparelhos eletrônicos portáteis em sala somente quando utilizados para fins estritamente pedagógicos, sob a orientação de educadores.

3. Os grupos, em silêncio, devem exibir uma primeira vez o plano selecionado com som, se o tempo assim permitir, considerando que o filme completo já foi exibido anteriormente.

4. Os planos são exibidos novamente, desta vez sem som, para que os estudantes possam relatar os elementos que foram anotados pelos grupos/pares.

Caso nenhum grupo traga essas considerações durante o exercício de plano comentado, finalize o momento “Câmera” observando que pesquisadores já analisaram o documentário como algo que não só registra sons, mas que questiona a própria representação do improviso, ou seja, como filmagem de algo espontâneo sem engessar sua espontaneidade (Elduque, 2017). Para aprofundar essa reflexão da captação da espontaneidade da cultura e da performance em contraponto à fixação e à permanência da linguagem cinematográfica (como filmar o improviso?), coloque as seguintes perguntas em debate:

- Vocês acham que a presença da câmera muda o que está acontecendo?
- O filme parece ensaiado ou vivido?
- A câmera interfere ou acompanha a cena?

Dessa forma, é possível ampliar a análise acerca da linguagem cinematográfica, especialmente a documental, ao discutir e conectar a compreensão do filme com os limites da representação audiovisual, o improviso, a criação coletiva e a liberdade – temas caros ao diretor Leon Hirszman e ao Cinema Novo.

Uma roda de samba, com músicos tocando diversos instrumentos, como prato e cavaquinho. Todos os artistas que estão na imagem são homens negros.
Partido alto, de Leon Hirszman | imagem: divulgação

c) Ação – Criação e pertencimento: da leitura à autoria

Objetivos

O momento “Ação” tem como objetivo ampliar o repertório sociocultural dos estudantes por meio da problematização das manifestações culturais contemporâneas que dialogam com suas vivências, articulando o documentário Partido alto com práticas artísticas atuais. Busca-se promover o uso crítico da inteligência artificial (IA) como ferramenta de investigação, estimulando a análise dos critérios, limites e implicações das respostas produzidas por sistemas algorítmicos.

Ao comparar o discurso do filme com manifestações culturais próximas à realidade juvenil, pretende-se desenvolver a compreensão da cultura como prática social viva, dinâmica e coletiva. A produção do “videominuto” visa consolidar o processo formativo por meio da autoria, incentivando a expressão criativa, a reflexão crítica e a construção colaborativa do conhecimento, integrando linguagem audiovisual, cultura digital e análise sociocultural.

Habilidades da BNCC Computação

(EM13CO05) Identificar os limites da Computação para diferenciar o que pode ou não ser automatizado, buscando uma compreensão mais ampla dos limites dos processos mentais envolvidos na resolução de problemas.

(EM13CO10) Conhecer os fundamentos da Inteligência Artificial, comparando-a com a inteligência humana, analisando suas potencialidades, riscos e limites.

(EM13CO18) Planejar e gerenciar projetos integrados às áreas de conhecimento de forma colaborativa, solucionando problemas, usando diversos artefatos computacionais.

(EM13CO19) Expor, argumentar e negociar propostas, produtos e serviços, utilizando diferentes mídias e ferramentas digitais.

Mãos à obra

Seguindo a abordagem freireana, o que se busca nas propostas e atividades deste momento é transformar o partido-alto de objeto fixo em categoria de análise cultural. Portanto, a partir do texto do filme, narrado por Paulinho da Viola, ativa-se a memória cultural para deslocar o foco do que é o partido-alto para quais manifestações cumprem hoje uma função similar de comunhão, coletividade, improviso e identidade. Para tal, duas atividades são propostas.

Inicialmente, separe a turma em grupos, podendo ser os mesmos que realizaram o exercício de plano comentado. Peça aos estudantes que transcrevam a narração de Paulinho da Viola  e façam um prompt para a IA de forma a deixar lacunas nos termos relacionados ao partido-alto e ao samba. Assim, incentive-os a criar um comando inicial seguido do texto lacunar transcrito, como a seguir:

 

A partir do texto abaixo, identifique a qual manifestação artística contemporânea este discurso poderia se referir, considerando práticas culturais que envolvam improviso, coletividade e identidade juvenil:

 

A roda de [partido] é um momento de liberdade. O [partideiro] mesmo tira o verso de improviso, como faziam [João da Gente, Alcides, Niceto do Império, Candeia e tantos outros]. Hoje, como não há mais essa obrigação, cada um pode dizer seu verso mesmo decorado.

 

Quando menino, eu via no [partido] uma forma de comunhão entre a gente [do samba]. Era brincadeira, a vadiagem, onde todo mundo participava como podia e queria. A arte mais pura é o jeito de cada um, e só o [partido-alto] oferecia essa oportunidade.

 

O [samba] tem hoje muitos compromissos que reduzem a criatividade dos [sambistas] aos limites ditados pelo grande espetáculo. No [partido], porém, tudo acontece de um jeito mais espontâneo, por isso sempre haverá [partideiros], e o verso, de improviso ou não, refletirá as verdades sentidas na alma de cada um. ‘Vamo’ vadiar?”

 

Neste momento, o mais importante é que a turma reconheça a IA como ferramenta que opera por padrões. Assim, antes de aceitarem a resposta da IA, eles podem discutir:
- A IA acertou? Por quê?
- Que critérios ela usou?
- Ela invisibilizou algo ou reforçou estereótipos?
- A IA “entende” cultura ou reconhece padrões de linguagem?
- A resposta da IA representa a realidade estudantil?

Na próxima etapa, após a discussão, cada grupo escolhe confirmar a sugestão da IA ou discordar dela e propor outro gênero. Alguns exemplos de manifestação cultural e artística que podem surgir são: batalha de rima, funk, slam, passinho, grafite, trap, dança urbana, cosplay e cultura gamer.

Os estudantes, ainda em grupos, deverão ser orientados a realizar um videominuto (vídeo de um minuto) com base no gênero artístico e cultural escolhido com a ajuda da IA. É interessante que, nesta atividade, os aspectos que foram analisados na etapa “Câmera” em relação ao filme Partido alto, ao seu diretor e ao movimento cinematográfico – limites da representação audiovisual, improviso, criação coletiva e liberdade – se sobressaiam e guiem a “ação” e o processo criativo. Dessa forma, os grupos poderão realizar um documentário curto, uma encenação, o registro de um depoimento, uma performance e até mesmo a mistura dessas opções. Ainda assim, oriente-os a observar alguns pontos mínimos e básicos para a realização do vídeo:

1.  apresentação da manifestação escolhida;
2. explicação de como ela funciona como espaço de comunhão e coletividade;
3. relação com o improviso ou a expressão individual;
4. diálogo com o texto do filme Partido alto.

Para finalizar, organize um momento em que os grupos/estudantes possam apresentar os vídeos produzidos para a própria turma ou para a comunidade escolar. Se possível, solicite à turma que comente o que achou do processo de aprendizagem com o filme Partido alto e como foi para eles realizar o vídeo.

III. Curiosidades

- O filme Partido alto foi concebido em estreita colaboração com Paulinho da Viola, que, além de aparecer participando da roda de partido-alto no último plano do curta, narra o texto do filme (utilizado na seção “Ação” desta sequência didática) com um tom íntimo e afetivo.

- É importante observar que o diretor Leon Hirszman não optou por uma narrativa tradicional – com começo, meio e fim –, e sim por algo que funcionasse mais como um registro sensorial e cultural do Brasil, o que aproxima mais o filme de uma visão inovadora e antropológica, ou seja, de uma etnografia visual/musical.

- Embora não tenha recebido nenhuma premiação relevante em festivais renomados, o curta consagrou-se como obra fundamental do documentário musical brasileiro e, mais que isso, destaca-se por ser considerado também um precioso documento histórico e cultural, integrando e fortalecendo o patrimônio audiovisual brasileiro.

- Além do curta-metragem Partido alto, a plataforma IC Play oferece acesso ao clássico e premiado filme Eles não usam black-tie (1981), dirigido por Hirszman e baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri, contando com a atuação deste como um dos protagonistas do filme (Otávio) e com a icônica participação de Fernanda Montenegro no papel de Romana. O longa-metragem retrata um conflito familiar e laboral durante uma greve no ABC Paulista no final da década de 1970. A IC Play disponibiliza também a trilogia Imagens do inconsciente (1986), série de documentários dirigida por Hirszman que narra a obra de artistas sob os cuidados da psiquiatra Nise da Silveira.

Paulinho da Viola olha para o infinito. Ele está sério e usa uma camisa branca.
Partido alto, de Leon Hirszman | imagem: divulgação

IV. REFERÊNCIAS

CÁCERES, Natalia Mardones; HENRÍQUEZ, Patricio Carrasco (coord.). Manual de creación cinematográfica Programa Escuela al Cine. Fundación Centro Cultural Palacio de La Moneda, Cineteca Nacional de Chile, 2020. Disponível em: escuelaalcine.gob.cl/recursos-didacticos/manual-de-creacion-cinematografica/. Acesso em: 16 mar. 2026.
ELDUQUE, Albert. Narrativas do improviso em “Partido alto” (Leon Hirszman, 1976-1982). Anais Digitais do XXI Encontro Socine, João Pessoa, 2017. Disponível em: associado.socine.org.br/anais/2017/16975/albert_elduque/narrativas_do_improviso_em_partido_alto_leon_hirszman_1976_1982. Acesso em: 16 mar. 2026.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 54. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Educar com a mídia: novos diálogos sobre educação. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.
HOOKS, bell. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. São Paulo: Elefante, 2021.
LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, p. 20-28, jan.-abr. 2002.
ORTIZ, Ramos. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo: Editora Brasiliense, 2001.
RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro: Record, 2000.
SOARES, Maíra Ferreira. A rima na escola, o verso na história. São Paulo: Boitempo, 2012.

 

Minibiografia do elaboradora

Juliana Marra (ela/dela) é professora, historiadora, produtora cultural e realizadora audiovisual. Navega entre história, narrativas, audiovisual, patrimônio, educação decolonial e gênero, investigando o cinema como experiência formativa. Desde 2017, dedica-se à pesquisa e à criação no campo do cinema escolar, ministrando aulas e orientando pesquisas e produções audiovisuais em lugares de aprendizagem. Em 2023, dirigiu seu segundo curta-metragem, Pirenópolis, a guardiã das águas, selecionado em oito festivais nacionais e internacionais. Atualmente, finaliza sua tese de doutorado na Universidade Federal de Goiás (UFG), intitulada Luz, câmera, narr-ação! A experiência cinematográfica na escola: cruzos artísticos, políticos e históricos.

CineAula IC Play é um projeto do Itaú Cultural (IC) que consiste na publicação periódica, aqui no site, de sequências didáticas baseadas em conteúdos da IC Play – nossa plataforma de streaming gratuita –, com o objetivo de promover o diálogo entre educação e cinema a partir de diferentes temáticas e da linguagem audiovisual. A iniciativa prevê o desenvolvimento de materiais educativos para subsidiar o trabalho com filmes disponíveis na IC Play em sala de aula, bem como em contextos análogos, como cineclubes, oficinas e centros culturais, buscando, assim, estimular a fruição audiovisual e valorizar o cinema brasileiro. Além disso, pretende aproximar a arte e a cultura da educação básica, fomentar o pensamento crítico e criativo dos estudantes e estabelecer um diálogo contínuo com professores da educação básica. O projeto foi criado e é coordenado por Camila Fink, Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo.

Expediente desta sequência didática
Conselho editorial Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo
Autoria Juliana Marra (selecionada via edital)
Edição Bruna Martins (terceirizada)
Revisão Rachel Reis (terceirizada)

 

Confira aqui as sequências didáticas da primeira edição do CineAula IC Play.

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