A nona sequência didática, última da primeira edição do projeto “CineAula IC Play”, trabalha o curta-metragem “Língua e território”, de Claudiney Ferreira
Publicado em 08/12/2025
Atualizado às 16:34 de 25/11/2025
CineAula IC Play – 1a edição
Luz, câmera, educAção:
o streaming gratuito do cinema brasileiro na sala de aula
por Gilmar Tupã Re Sapy Chamorro
Sequência didática #9: Língua e território, caminhos para compreender o mundo
Ficha técnica
Filme: Língua e território (São Paulo, 2017)
Direção: Claudiney Ferreira
Elenco: Isael Maxakali e Sueli Maxakali
Classificação indicativa: livre
Gênero: documentário
Sinopse: No Vale do Mucuri, em Minas Gerais, fica a Aldeia Verde da Ladainha, onde vivem indígenas Maxakalis, que preservam sua identidade por meio da língua. Essa língua, que é cura, resistência e acesso ao mundo espiritual, vem dar sentido à existência desse povo. Nomear as coisas também é criá-las.
I. TRAILER PARA QUEM EDUCA
Caro professor e cara professora (Ndeve va´erã mbo’ehara)*,
*Os termos colocados entre parênteses e em bold são escritos na língua guarani.
Pensemos nestas situações: Lúcia dá aula de língua portuguesa na Escola Estadual Carolina Maria de Jesus; Jéssica está se preparando para o vestibular; secundaristas colocam-se contrários ao fechamento de colégios. Mais do que circunstâncias, essas são cenas, respectivamente, da série Segunda chamada (2019-2021), do longa Que horas ela volta? (2015) e do documentário Escolas em luta (2017). Todas elas unem contextos de aprendizagem ao audiovisual criado no nosso país. As câmeras colaboram para discussões e imaginários acerca da educação no Brasil – em diferentes fases, com diferentes sujeitos. Mas por que começar esta conversa assim, recuperando takes? A razão nada tem de complicada: o que queremos mesmo é falar dessa combinação entre os fazeres cinematográfico e educacional, essência do novo projeto do Itaú Cultural (IC).
Com a intenção de aproximar o cinema da Educação Básica, estimulando o letramento audiovisual e a valorização das produções nacionais, apresentamos o CineAula IC Play. A cada mês, vocês podem conferir, aqui no site do IC, sequências didáticas baseadas em conteúdos disponíveis na IC Play, a nossa plataforma de streaming gratuita. Esta iniciativa busca oferecer ferramentas para a aplicação da Lei no 13.006/2014 – a qual obriga a exibição de filmes brasileiros nas escolas básicas –, entendendo, ainda, que a fruição estética e crítica corresponde a um direito e a um componente fundamental do processo formativo e cidadão.
Os exercícios propostos, vale salientar, estão em consonância com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e com o seu complemento, que aborda a área da computação. Em alguns casos, as tarefas podem suscitar debates sobre inteligência artificial (IA) em aula (tudo em conformidade com a Lei no 15.100/2025, que proíbe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis em sala, exceto quando utilizados para fins estritamente pedagógicos ou didáticos, sob orientação de educadores).
As atividades aparecem divididas em tópicos, cujas denominações remetem a termos do audiovisual, incorporando essas expressões ao nosso vocabulário. Esta parte, por exemplo, é como um trailer; depois, há o plano-sequência e os bastidores, vejam só. Fora isso, saibam que todas as produções selecionadas para o CineAula IC Play estão licenciadas para exibição em ambientes escolares. Logo, fiquem à vontade para assistir às indicações com os alunos.
O objeto desta sequência didática é o curta-metragem Língua e território (2017), dirigido por Claudiney Ferreira, que registra as reflexões dos cineastas Isael Maxakali e Sueli Maxakali sobre sua língua de origem. Por meio dos relatos de Isael e Sueli, a obra evidencia a relevância da língua na preservação da cultura e da identidade dos povos indígenas. Além de ser um meio de comunicação, seu idioma é um espaço de memória, no qual estão guardados os saberes, os cantos, as histórias e a visão de mundo de cada povo. Assim, sua perda significa também a perda de parte da própria cultura.
O filme em questão conta com uma abordagem sensível sobre a estreita relação entre língua e território, ressaltando que falar a própria língua é também afirmar o direito de existir como povo. O território, por sua vez, não é apenas o espaço físico, mas um lugar de pertencimento, no qual o idioma ganha vida e se fortalece. Dessa forma, o curta mostra que preservar a língua e garantir o território andam juntos no processo de resistência, continuidade e fortalecimento das tradições indígenas.
Destacamos, por fim, que, embora este material tenha sido elaborado pensando em turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA), segmento Ensino Médio, ele pode ser adaptado para outras etapas da educação, desde que respeitada a classificação indicativa do filme. Nesse sentido, as adequações devem considerar as necessidades e os momentos de cada grupo, observando o seu ritmo e construindo um percurso que sempre respeite a todos.
Boa leitura! E boa sessão!
Obrigado! (Há´evete”!)
II. PLANO-SEQUÊNCIA
a) Luz – Minha língua, nossa língua (Che ñe´e, ñande ñe’ e)
Objetivos
Ativar conhecimentos prévios e conectar a realidade do educando com o tema do curta-metragem.
Habilidades da BNCC
(EM13CHS204) Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas.
Mãos à obra
Em uma conversa inicial, traga a pergunta: “Quais cidades ou estados brasileiros vocês conhecem?”. Organize no quadro as respostas dadas, que podem ser Foz do Iguaçu, Curitiba, Itaipulândia, Pará, Paraná, Tocantins etc. Em seguida, questione novamente a turma: “Vocês sabem o significado desses nomes de cidades e estados citados?”. Compartilhe alguns significados de nomes indígenas:
- Paraná = “semelhante ao mar”;
- Tocantins = “bico de tucano”;
- Itaipulândia = “pedra que faz barulho”;
- Foz do Iguaçu = “Iguaçu” vem do termo Yguaçu, que significa “rio grande”;
- Pará = mar.
“Por que será que tantos nomes de lugares no Brasil vêm de línguas indígenas? Aqui onde moramos, quais nomes de locais (rios, trilhas, aldeias, bairros, cidades) derivam de uma língua indígena?” Feitos esses questionamentos, entregue um papel e uma caneta aos estudantes. Cada um deve escolher um desses nomes, escrever no papel, pesquisar o significado (pode ser no celular, no computador, no Chromebook etc.) e mostrar para todos, explicando as informações encontradas.
Terminado esse compartilhamento de nomes e significados, mostre o pôster do curta-metragem, destacando o título: por que o filme se chama Língua e território? Outras perguntas podem ser somadas:
- A língua é importante para o território? De que maneira?
Comente as respostas e, na sequência, exiba o filme, disponível na IC Play.
b) Câmera – Território (Tekoha): muito mais do que um espaço físico, é resistência
Objetivos
Habilidades da BNCC
(EM13CHS101) Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.
(EM13CHS202) Analisar e avaliar os impactos das tecnologias na estruturação e nas dinâmicas de grupos, povos e sociedades contemporâneos (fluxos populacionais, financeiros, de mercadorias, de informações, de valores éticos e culturais etc.), bem como suas interferências nas decisões políticas, sociais, ambientais, econômicas e culturais.
(EM13CHS204) Comparar e avaliar os processos de ocupação do espaço e a formação de territórios, territorialidades e fronteiras, identificando o papel de diferentes agentes (como grupos sociais e culturais, impérios, Estados Nacionais e organismos internacionais) e considerando os conflitos populacionais (internos e externos), a diversidade étnico-cultural e as características socioeconômicas, políticas e tecnológicas.
Mãos à obra
Após a projeção do curta, peça aos alunos que se dividam em pequenos grupos para responder a questões como:
- O que mais chamou sua atenção nas falas dos cineastas?
- Qual é a relação entre língua e território apresentada no filme?
Cada grupo registra suas respostas em papel-sulfite ou cartolina, podendo também ilustrar essas impressões.
Explique que, nessa primeira exibição, a turma deve assistir ao videoclipe na íntegra, observando tanto as imagens quanto as legendas em guarani e em português.
Em seguida, entregue aos alunos a letra da canção traduzida para o português (disponível no próprio vídeo). Agora, proponha uma segunda escuta, desta vez somente do áudio da música, sem o videoclipe, pedindo que acompanhem a letra impressa enquanto ouvem.
Após a escuta, divida os estudantes em três grupos distintos:
- grupo 2: representa a voz da neta (resistência, denúncia, rap);
- grupo 3: representa a voz da natureza (rios, animais, matas).
Cada grupo deve criar pequenos trechos falados, cantados ou encenados, partindo da letra de MC Anarandà, para simbolizar o conflito entre memória, presente e futuro do território. Abaixo, veja alguns comentários que podem direcionar os educandos.
- Grupo 1, a voz da avó: os alunos podem falar sobre como era, no passado, o território onde vivem, em particular no que diz respeito à natureza e aos saberes tradicionais. Exemplo de falas que podem ser criadas: “Na minha infância, o rio corria limpo, a floresta vivia em harmonia com a gente”. Caso seja necessário, incentive-os a procurar relatos de pessoas mais velhas da comunidade local.
- Grupo 2, a voz da neta: aqui, os estudantes devem falar sobre ameças, injustiças, desmatamento e luta por direitos. Peça que façam uma observação do local onde moram, a começar pelos arredores da escola. Exemplo de falas que podem ser criadas: “Hoje a floresta chora e ninguém quer escutar. Com coragem, eu luto e denuncio”.
- Grupo 3, a voz da natureza: a ideia aqui é que seja algo mais simbólico, como se a própria floresta falasse. Exemplos: “Eu sou o rio sufocado pelo lixo que vocês jogam”; “Minhas folhas caem, mas meu espírito resiste”.
Finalizados os trechos, as rimas ou as falas, os grupos ensaiam e apresentam os resultados para os colegas.
c) Ação – Sem tekoha (território) não há teko (vida)
Objetivos
Analisar as fronteiras e como as línguas e práticas culturais se distribuem ao longo do território, levando em consideração as dinâmicas sociais, políticas e econômicas. Usar inteligência artificial (IA) para a análise e a visualização de dados geográficos e culturais em mapas interativos.
Habilidades da BNCC
(EM13CO10) Conhecer os fundamentos da Inteligência Artificial, comparando-a com a inteligência humana, analisando suas potencialidades, riscos e limites.
(EM13CO21) Comunicar ideias complexas de forma clara por meio de objetos digitais como mapas conceituais, infográficos, hipertextos e outros.
Mãos à obra
Nesta parte da aula, o educador pode trazer esta frase dita por Sueli Maxakali no documentário Língua e território: “Ou a terra ou a língua”. Sugere-se que a expressão seja utilizada como provocação para explorar a ideia de que as fronteiras culturais podem ser mais complexas do que as fronteiras políticas.
Introduzida a discussão, peça aos alunos que usem ferramentas de IA para mapear e analisar as fronteiras culturais de uma região, comparando-as com as fronteiras políticas e geográficas. A turma deve buscar respostas para perguntas como: Quais são as áreas com maior diversidade linguística no país ou na região? Quais territórios apresentam tensões linguísticas ou culturais, com línguas e/ou práticas culturais sendo ameaçadas? Após a pesquisa em uma ferramenta de IA, os estudantes devem confirmar tais dados em sites oficiais como o da Unesco Institute for Statistics (UIS), o do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por exemplo.
Passo 1: Seleção dos territórios
Divida os alunos em grupos. Cada grupo fica responsável por um território específico, preferencialmente uma região brasileira com diversidade cultural e linguística.
Passo 2: Coleta e análise de dados com IA
Utilize uma única ferramenta de IA para a elaboração de mapas interativos, como o Google Earth Engine ou o ArcGIS Online. Os grupos devem inserir dados sobre a diversidade linguística na região; áreas onde existem tensões ou ameaças às línguas e culturas locais; e a relação entre a geografia física e as fronteiras culturais. A ferramenta deve permitir a visualização dinâmica dos dados e a comparação entre fronteiras políticas e culturais.
Passo 3: Construção dos mapas interativos
Os alunos organizam os dados coletados e, com a utilização de uma ferramenta de IA, constroem mapas interativos que evidenciem a diversidade cultural e linguística dos territórios escolhidos.
Passo 4: Apresentação e reflexão
Cada grupo apresenta seu mapa interativo para a turma, explicando o que os dados mostram sobre a relação entre território e cultura na região estudada.
III. CORTA! QUE TAL UM POUQUINHO DOS BASTIDORES?
- Isael e Sueli Maxakali, entrevistados no curta-metragem Língua e território, participaram da série Encontros de cinema, do Itaú Cultural, em 2016, com um depoimento gravado durante o evento Mekukradjá – Círculo de Saberes de Escritores e Realizadores Indígenas. Eles relembram como aprenderam a usar uma câmera de vídeo: no ano de 1999, em uma oficina ministrada por Divino Tserewahú, na produtora Filmes de Quintal.
- Cada povo indígena tem um nome pelo qual é conhecido, chamado de etnônimo. Por exemplo, o povo Maxakali é conhecido assim no Brasil, mas entre eles o nome verdadeiro é Tikmũ’ũn. Essa palavra vem da junção de tihik (homem) e mu’un (grupo, inclusão), e pode ser traduzida para o português como “nós”.
- O português não é o único idioma falado no Brasil. Existem cerca de 274 línguas indígenas no país. Essas línguas pertencem a duas grandes famílias, chamadas de troncos linguísticos: tupi e macro-jê. A língua Maxakali, falada pelo povo Tikmũ’ũn, faz parte do tronco macro-jê.
Veja também:
>> Visite o site da Ocupação Ailton Krenak
>> Conheça o site do Mekukradjá
IV. SOBEM OS CRÉDITOS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: gov.br/mec/pt-br/escola-em-tempo-integral/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal.pdf. Acesso em: 3 abr. 2025.
MINIBIOGRAFIA DO ELABORADOR
Gilmar Tupã Re Sapy Chamorro (ele/dele) é professor e pesquisador da cultura Guarani. É formado em geografia pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e mestrando em educação profissional na mesma instituição. Atua nos ensinos Fundamental e Médio, com foco em língua, território e identidade indígena. Dedica-se à valorização dos saberes tradicionais em diálogo com os conteúdos escolares, além de realizar projetos de campo e produções audiovisuais com estudantes. Também produz vídeos educativos sobre a língua e a cultura Guarani e participa de iniciativas de fortalecimento cultural da comunidade Avá-Guarani.