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Artista visual Kambô pinta os rios e os ribeirinhos do Pará

Obra integra o projeto “Arte urbana”, que convida artistas para intervirem na fachada do Itaú Cultural

Publicado em 13/04/2023

Atualizado às 03:00 de 11/05/2025

Por William Nunes

Beira de rio (2023) é a nova obra exposta no banco do Itaú Cultural (IC), na Avenida Paulista, 149, em São Paulo. A pintura é do artista paraense Kambô, natural da cidade de Cametá, e faz parte do projeto Arte urbana, que convida artistas para intervirem na fachada do prédio do IC. Ela também dialoga com a Ocupação Dona Onete, que conta a vida e a obra de uma das grandes artistas do Pará – saiba mais sobre a mostra.

O rio é elemento fundamental da cultura amazônica, responsável pela diversidade do alimento, pela cultura e pelo meio de circulação dos habitantes. Na sua pintura, Kambô traz a representação das águas de sua cidade: “O rio de Cametá é diferente do rio em Belém”. Sobre o município, ele complementa: “Cametá é conhecida como ‘terra dos notáveis’, por causa da grande presença de figuras históricas no Pará”.

Na entrevista abaixo, Kambô fala sobre os rios e a cultura ribeirinha, além de sobre o seu processo criativo e o seu aprendizado autodidata.

Fotografia colorida de um detalhe da pintura do artista visual Kambô. A obra foi feita no banco na fachada do Itaú Cultural. A imagem mostra um lado da pintura, focando em um barco navegando em um rio e a vegetação no entorno. As cores são verde, rosa, azul e vermelho.
Beira de rio (2023), Kambô (imagem: Letícia Vieira)

Como você iniciou nas artes visuais e no trabalho criativo?

Eu sempre me interessei por tecnologia. Eu não tinha acesso à internet quando criança, não tinha TV a cabo ou MTV em casa, então meu interesse sempre foi algo ativado pela curiosidade de conhecer o que vinha de fora. O comecinho da minha infância foi bem humilde, meus pais foram para Cametá e começaram a trabalhar com lojas, viajando a São Paulo para comprar coisinhas e revender. Eu lembro que, até os meus 8 anos, não tinha muita tecnologia dentro de casa, principalmente tecnologia de comunicação [internet]. Eu não tinha, por exemplo, contato com a música de fora. Mas eu sempre tive contato com o videogame, porque minha mãe viajava e trazia os videogames piratas para mim. Sempre fui rodeado por essas tecnologias lançadas no Paraguai.

Cametá é uma cidade culturalmente muito rica, porém com uma mentalidade provinciana, como 90% das cidades da Amazônia. Ser visto como artista ou ter referências artísticas dentro da própria cidade de forma estimulante é algo que não está em voga.

Por isso digo que sou alimentado por essa curiosidade desde criança. A primeira vez que tive acesso à internet foi revolucionário. 

Desde moleque – por causa dos videogames e depois pelo computador –, fui muito influenciado por tecnologia. Eu sou um acumulador de coisas digitais. Desde bem pequeno, sou fissurado por música em MP3, por baixar músicas. E depois descobri que conseguia piratear os jogos do gameboy.

Essa pesquisa e esse modus operandi de hackear são muito presentes na minha juventude – e na dos meus amigos de lá também. Muito disso é o que gera o tecnobrega, que é uma música eletrônica genuinamente brasileira criada nas lan houses, nos cibercafés e nas palafitas de Belém. Esses pontos são bastante vistos nas periferias da Amazônia.

Com 15 anos, eu coloquei na cabeça que queria ser diretor de cinema, mas não tinha onde estudar, nem dinheiro para vir a São Paulo; ainda não tinha faculdade de cinema em Belém. O que eu podia fazer era baixar torrents de arquivos em PDF e tudo mais que achasse; e, a partir daí, tentar desenvolver minha grade curricular de acordo com os meus interesses.

A minha formação e o meu interesse por arte vieram dessa tecnologia, sou autodidata. Eu larguei cinco faculdades, não sou adaptado à academia. Dentro do meu aprendizado, sou muito veloz, não gosto de perder tempo. A faculdade só serviu para me dar um direcionamento nos primeiros semestres. Eu sou muito adepto e militante do processo digital e da integração da tecnologia às comunidades que não têm esse acesso.

Você traz muito de Cametá e da cultura ribeirinha para esta pintura. Como sua vivência está presente no seu trabalho?

Eu visualizo uma necessidade emergencial de dialogar sobre um processo chamado de decolonização do olhar, principalmente voltado para a Amazônia. Temos uma falta de valorização da nossa cultura imagética e do nosso cotidiano de maneira contemporânea. Dentro do clichê, o que é vendido como Amazônia são os povos originários e as florestas – e não é somente isso. Falando de representatividade, não existe uma discussão voltada para a cultura ribeirinha, por exemplo. Falando em cotas, temos representatividade para indígenas, negros e LGBTQIA+ tanto nos processos educacionais quanto nos processos de curadoria de arte, mas não tem ninguém falando pelos ribeirinhos.

A minha cidade foi colonizada por franceses, então temos gírias e sotaques de lá. Se você falar com o caboclo, ele fala muito rápido. Quando você vai para as ilhas, encontra uma galera muito galega de olho claro. Essa galera não entra em cota porque, em tese, não é vista como minoria, não é indígena. E eles nunca vão se aceitar como indígenas. Não adianta falar de ancestralidade, eles não sabem o que é. Isso é conversa de sudestino, em Belém estamos começando a notar somente agora. O ponto é que temos que conviver com eles para de fato entender e falar a língua. E entender que a Amazônia é como se fosse São Paulo em termos de miscigenação, é megamiscigenada. Tem toda uma parte que não é contada, que não é vista. O território cametaense tem umas 580 ilhas. Dentro da cidade, vivem 80 ou 90 mil habitantes. Ao redor, nessas ilhas, são 120 mil. Lá mesmo existe um preconceito gritante entre quem é dos sítios (os ribeirinhos) e quem é do centro (da cidade). É sempre muito delicado entender essas disparidades.

Portanto, o meu processo criativo é voltado para essa decolonização, para mostrar que as nossas diferenças são marcantes. Um dia fui perceber que o maior designer em que eu poderia me espelhar em termos de criação é a natureza. Basta ter sensibilidade para olhar. 

Eu brinco com os caboclos de Cametá que somos inundados por produtos de outros lugares, que chegam pirateados. Fui fazer um trabalho de fotografia no Carnaval das Águas, uma manifestação cultural da cidade que acontece ao longo das ilhas. Quando cheguei lá, tinha uns 80 brincantes e crianças. Eu contei umas 16 crianças com tênis air Jordan – falsificados, mas eram air Jordan –, então as demandas chegam até lá. Costumamos ver muito Lacoste, o jacarezinho. Deveríamos tirar o jacaré e colocar uma piranha ou um pirarucu, são mais bonitos!

Meu processo é identificar os signos visuais do cotidiano ribeirinho e amazônico e trazer para o nosso contato, dentro dos nossos produtos.

E usar um traço mais de Pop Art, que seja facilmente digerível visualmente, para que as pessoas aceitem e valorizem essa imagética. O que mais vejo nas casas de Cametá são fotos e quadros de outros lugares do mundo, mas não fotos do Carnaval das Águas, da nossa orla, dos nossos pratos. É um processo emergencial fazer com que o habitante de Cametá e da Amazônia sinta orgulho das visualidades que existem lá.

Como os rios estão inseridos na cultura amazônica?

O rio é tudo, é o que há de mais importante. Em Cametá é diferente de Belém. Belém é uma cidade que foi projetada, na época da colonização, de costas para o rio para se esconder das invasões. O primeiro ponto de descoberta de Belém é o Forte do Castelo, um lugar de resistência. Por causa desse temor das invasões, aquela parte da frente – da Estação das Docas – é recente. Há 20 anos, Belém não tinha janela para o rio, a não ser no Ver-o-Peso, onde você podia ver o rio de frente. Todas as beiradas eram ocupadas. No começo dos anos 2000, foi iniciado o projeto Janelas para o rio, que criou o Complexo Turístico Ver-o-Rio.

Cametá é completamente diferente, ela é de frente para o rio. O Rio Tocantins é muito peculiar, a minha cidade em si é muito peculiar. Eu estou numa pesquisa grande da arquitetura fluvial da região, de desenhar os diferentes barcos – a gente chama de popopô e rabetas.

Tudo é movido pelo rio: a comida vem do rio, o transporte passa pelo rio, os acessos são por ali. O rio é a rua, como diz a música. O rio é responsável pela diversidade de peixes que temos.

Eu percebi recentemente que não consigo me afastar de Cametá; passo um mês longe e quero voltar.

Queria que você falasse sobre o uso das cores nas suas obras. A inspiração também vem da floresta?

Eu gosto muito de verde e rosa. A minha base de paleta é de cores complementares batendo uma de frente com a outra.

Dentro de pesquisa voltada para a Amazônia, gosto de trabalhar com a diversidade de verdes. É muito complexo trabalhar com esse verde de diferentes tonalidades e saturações. Uma das combinações, dentro da visualidade da Amazônia, de que mais gosto é do verde com o rosa, que temos nos caládios, que são os tambatajás.

São milhares de tipos dessa planta na floresta, mas os de tonalidade rosa, quando batem no contraste com o verde, são algo espetacular.

Outra coisa que me chama atenção são as flores de jambo-rosa, quando caem e deixam o chão todo rosa; aquilo, quando entra em contraste com o verde, é mágico – é como Pandora, de Avatar. Também tem muito de fluorescente, uma presença enorme de vagalumes na floresta. É um processo mágico, difícil de registrar.

Gosto muito do ar lúdico que essa combinação de cores complementares proporciona. Gosto de dizer que as cores nos dão liberdade, elas nos fazem sentir. Eu procuro não me prender: às vezes, o céu é rosa ou verde; noutras, o rio também é rosa. Vou sentindo na hora como pintar.

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