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A memória como ato cênico: “A última temporada” e o legado que permanece

Apoiado pelo programa “Rumos Itaú Cultural”, projeto de longa-metragem de Fernando Barcellos reflete sobre o Alzheimer e a importância de honrar a trajetória dos mais velhos

Publicado em 03/06/2026

Atualizado às 15:05 de 01/06/2026

As luzes do palco e as sombras do esquecimento se cruzam em A última temporada, novo projeto de longa-metragem ficcional do diretor, roteirista e produtor Fernando Barcellos. A trama narra a história de Sérgio, um ator aposentado que, ao ser diagnosticado com Alzheimer, decide realizar uma última montagem teatral para selar seu legado. O desenvolvimento de roteiro da obra contou com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural em sua edição 2023-2024.

Entre o esquecimento e o afeto

Sérgio (Hilton Cobra) é afastado dos palcos por conta de um espetáculo mal-sucedido. O ator, então, descobre o Alzheimer e decide embarcar numa jornada de retorno à cena – para isso, conta com a parceria da filha, Rosa (Alice Carvalho), uma estudante de teatro que inicialmente desaponta o pai por seguir a mesma carreira que ele, mas que acaba se tornando sua maior colaboradora.

Para Barcellos, o filme busca oferecer uma visão compassiva sobre como o Alzheimer afeta tanto o indivíduo, como seu entorno. “Sérgio percebe que sua maior obra é, na verdade, sua filha”, explica o diretor. A narrativa reforça que essa doença não deve ser vista como uma sentença de morte, mas como uma condição que, com o cuidado adequado, permite a preservação da identidade e da vontade do sujeito.

Envelhecimento e a sociedade

 A última temporada propõe uma discussão que ultrapassa o campo médico para tocar em questões universais:
● Luta contra o tempo: a reflexão sobre o envelhecimento em uma sociedade que supervaloriza a juventude e o imediatismo.
● Políticas de cuidado: a crítica à falta de políticas sólidas de saúde e inclusão para a crescente população idosa no Brasil.
● O cinema como arquivo: o uso da sétima arte como ferramenta essencial para registrar a história nacional e lutar pela preservação dela. 

Bastidores e identidade: o legado de Zózimo Bulbul

A produção carrega uma forte marca da cinematografia afro-brasileira. Barcellos – que é ativo no movimento negro e ex-assistente do cineasta Zózimo Bulbul – estruturou o projeto para que ele tivesse uma equipe diversa.

A escolha de Hilton Cobra, fundador da Cia. dos Comuns, para o papel principal e de nomes como os de Cristiano Conceição para a direção de fotografia e de Alexandre Magalhães para a direção de arte reforça o compromisso do longa com a excelência e a representatividade preta nos bastidores e na tela. “Como um homem de candomblé, aprendi a importância de honrar aqueles que vieram antes de nós. Envelhecer com dignidade é um direito”, afirma o diretor.

O projeto já concluiu a fase de estruturação narrativa e diálogos, entrando agora na etapa de captação de recursos; para isso, será inscrito no Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). As filmagens estão previstas para ocorrer no Bairro Peixoto, em Copacabana (RJ), e o plano de distribuição do longa inclui festivais nacionais e internacionais, com posterior lançamento em cinemas, televisão e plataformas de streaming.

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