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Canto o canto dos que seguem comigo

A cantora e compositora Guarani Mbya Tainara Takua fala sobre seu álbum de estreia, “Nhen’en Mboraí Ete”, suas referências e inspirações

Publicado em 30/06/2026

Atualizado às 11:50 de 30/06/2026

por Maria Clara Matos

Foi na Opy, casa de reza, que Tainara Takua aprendeu os cantos sagrados de seu povo. Junto com as mulheres e crianças da aldeia Yyn Morõtin Wherá [Águas Cristalinas], que fica em Biguaçu (SC), ela cresceu aprendendo, também por meio do canto, sobre o mundo espiritual e a importância da ancestralidade e da natureza. A jovem cantora e compositora Guarani Mbya foi uma das selecionadas do Rumos Itaú Cultural e lançou, no 2o semestre de 2025, o álbum Nhen’en Mboraí Ete [Espírito do canto], com seis músicas autorais.

Aos 12 anos, Tainara começou a tocar tambor e chocalho. Três anos mais tarde, passou a dedicar-se ao violão Guarani. “Eu entrei na casa de reza, vi o instrumento encostado e comecei a aprender”, conta. E o que era apenas uma brincadeira se tornou uma paixão improvável. Na tradição de seu povo, apenas os homens podem tocar violão; as mulheres tocam outros instrumentos, como a flauta e o takuápu (bambu). Por isso, ela resolveu se aconselhar com o avô, na época com 108 anos, sobre esse desejo. “Não é para qualquer um tocar o instrumento; se você consegue tocar, vá em frente”, disse ele. “Era tudo o que eu precisava ouvir. Então, eu me firmei no violão”, lembra a artista. O incentivo aumentou ainda mais com as milhares de visualizações das lives que ela fazia nas redes sociais.

No ano em que chegou à maioridade, porém, Tainara recebeu más notícias: sua mãe e sua avó faleceram, e ela parou de cantar. Depois de um período de reclusão na aldeia com a família, ela começou a faculdade de obstetrícia. “Eu queria ser parteira, assim como elas eram. Tinha dúvidas e sentia falta da música, mas queria dar orgulho a elas”, diz.

E novamente Tainara pediu os conselhos do avô, que foi categórico: “Se você está tentando dar orgulho a sua mãe e a sua vó, está fazendo tudo errado. Elas querem que você seja feliz”. Depois dessa conversa, ela voltou para a música com o desejo de compor mais. Na época, já tinha um EP com quatro canções gravadas: “Floresta”, “Brumas”, “Beija-flor” e “Horizonte”.

“Eu me inspiro muito na cachoeira. Foi nela que nasceram as minhas primeiras músicas. A faixa ‘Floresta’, por exemplo, fala sobre o quanto somos abençoados por termos a natureza e que é necessário valorizar mais as águas, os pássaros, os animais, o vento, o calor”, diz a artista. A árvore de jasmim também é uma referência: “Ela tem uma flor branca, que simboliza a paz e é muito sagrada para nós”.

Para além da natureza, as inspirações estão na ancestralidade, no sagrado feminino e, principalmente, no mundo espiritual. Tainara conta que muitas de suas canções lhe foram reveladas em sonhos por sua mãe e sua avó. “Eu escrevi várias sem saber a letra, fui tirando a melodia no violão. Minha música tem muita conexão com o mundo espiritual”, diz.

Conhecida como uma das primeiras indígenas Guarani a tocar violão, a compositora diz que gravar um álbum sempre foi seu sonho, e o Rumos era uma possibilidade para essa realização. “[Na época das inscrições] ,me veio uma lembrança de minha mãe de quando eu tinha 8 anos”, recorda. “A gente se abraçava e ela dizia que estava feliz por eu seguir seu caminho – era ela quem liderava o coral da aldeia e puxava o canto com as outras mulheres. A lembrança foi suficiente para que eu me inscrevesse.”

Na primeira versão do projeto, a ideia era ir até a aldeia e registrar o avô de Tainara. Segundo ela, seria uma honra ter a participação de um ancião, já que ele era considerado uma biblioteca viva. Além disso, a artista queria documentar os cantos do coral. Depois, veio a notícia de que seu avô havia falecido. O convite foi, então, estendido para sua tia, que passou a ocupar o lugar de anciã na aldeia. Após três meses de produção e ensaio, nasceu Nhen’en Mboraí Ete. Tainara conta que, durante as gravações, era impossível não sentir a forte presença de seus ancestrais. “Eles estavam ali comigo”, afirma.

Entre as músicas do álbum, ela destaca duas. A primeira, “Ancestrais”, fala de seus antepassados, especialmente de seus avós e tataravós. Ela parte do conto de uma velhinha que não possui família, mas é abençoada pelo Nhanderu (pai criador) com um cavalo, que se transforma em um menino de quem ela possa cuidar. Já em “Canto iluminado”, Tainara canta sobre o Nhamandu (pai Sol), que representa a esperança de viver e sobreviver apesar dos obstáculos: “O pai Sol sempre estará conosco, iluminando nossos pensamentos e nosso espírito”.  

O álbum foi lançado em outubro de 2025, em um show realizado no Itaú Cultural (IC), com acompanhamento de banda e do coral Kalipety. “Foi maravilhoso e muito gratificante me apresentar no IC”, diz Tainara. “Normalmente eu estou no palco apenas com violão e percussão, e neste show foi diferente. Teve baixo, flauta, sanfona e a rabeca Guarani, que é essencial. Para mim foi mágico.”

  Acesse o canal de Tainara no YouTube. 

 

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