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CineAula IC Play 2026 #6: Afetos e descobertas

Esta sequência didática propõe exercícios em torno de “Eu não quero voltar sozinho” (2010), filme de Daniel Ribeiro

Publicado em 10/08/2026

Atualizado às 18:51 de 05/08/2026

CineAula IC Play – 2a edição
Luz, câmera, educAção: 
o streaming gratuito do cinema brasileiro na sala de aula

por Mateus Lôbo

Sequência didática #6: Afetos e descobertas

Ficha técnica

Título: Eu não quero voltar sozinho
Ano: 2010
Direção e roteiro: Daniel Ribeiro
Estado: São Paulo
Classificação indicativa: 12 anos
Gênero: drama
Duração: 17 minutos
Produção executiva: Diana Almeida
Elenco: Ghilherme Lobo, Tess Amorim e Fabio Audi
Direção de fotografia: Pierre de Kerchove
Direção de arte: Olivia Helena Sanches
Companhia produtora: Lacuna Filmes
Acessibilidade: possibilidade de exibição com legendas
Sinopse:
Leonardo é um adolescente cego que vivencia a rotina escolar ao lado da amiga Giovana. Gabriel, um novo estudante, chega à escola e provoca mudanças na maneira pela qual Leonardo percebe a si próprio. Isso inaugura um processo de descoberta em tal personagem – processo esse marcado pela amizade e pelo despertar de um sentimento amoroso em relação ao colega recém-chegado. Nesse percurso, Leonardo passa a compreender seus afetos, enfrentando inseguranças e expectativas sociais ao mesmo tempo em que constrói sua identidade de forma mais autêntica.

Fotografia colorida de menino branco de cabelos castanhos, sentado diante de uma máquina de escrever cinza sobre mesa. Ele usa camiseta cinza. Ao fundo, janela com cortina branca.
Eu não quero voltar sozinho (2010), de Daniel Ribeiro | imagem: divulgação

I. CARTA AO PROFESSOR – VER, SENTIR E ESCUTAR A ADOLESCÊNCIA

Caro professor e cara professora,

O CineAula IC Play é um projeto do Itaú Cultural (IC) que aposta no potencial da linguagem audiovisual como ferramenta pedagógica formativa. Nesse sentido, tal iniciativa propõe sequências didáticas que exploram pontos de intersecção entre o cinema brasileiro e temáticas que podem ser abordadas nos percursos da Educação Básica – e é justamente nesse contexto que a presente edição do CineAula IC Play busca inserir o curta-metragem Eu não quero voltar sozinho (2010), dirigido por Daniel Ribeiro. A obra acompanha Leonardo, um adolescente cego que enfrenta dilemas típicos da adolescência, como conflitos nas relações de amizade e descobertas de novos afetos. Então, Gabriel, um novo aluno, chega para estudar na mesma escola de Leonardo – e isso desencadeia mudanças na forma como ele percebe a si mesmo e o mundo a seu redor.

A escolha desse curta para a sala de aula justifica-se por múltiplas razões. Dentre elas está, em primeiro lugar, o fato de que se trata de uma obra que dialoga diretamente com a juventude ao colocar, em cena, experiências e inseguranças compartilhadas por muitos estudantes. Para além disso, Eu não quero voltar sozinho não só aborda temas cuja apresentação aos jovens se faz importante – como a deficiência, a inclusão, a amizade e o amor na juventude –, mas também o faz sem recorrer a estereótipos. Por fim, ao aproximar o espectador da perspectiva de Leonardo, o filme propicia uma ampliação das possibilidades de reflexão sobre diferentes formas de sentir e experimentar a vida.

Como ocorre em todas as edições do CineAula IC Play, esta sequência didática foi pensada como um roteiro possível, e não como um modelo fechado. As atividades podem ser adaptadas ao ritmo de cada turma, ao tempo disponível de acordo com cada contexto e às experiências prévias dos estudantes. Dessa forma, o(a) professor(a) pode reorganizar, ampliar ou reformular os exercícios aqui propostos conforme julgar necessário, para que, assim, assuma um papel de mediador(a) no processo de aprendizagem dos jovens. Considerando tudo isso, o fundamental é que Eu não quero voltar sozinho funcione como um ponto de partida para o diálogo, a reflexão e a produção de sentidos junto aos estudantes, sempre respeitando o contexto educativo e as singularidades de cada grupo.

Boa sessão!

II. PLANO-SEQUÊNCIA

a) Luz – Ver o mundo de outros jeitos

Objetivos

Mobilizar os conhecimentos prévios dos estudantes sobre os seguintes temas: adolescência, autonomia, convivência escolar e diferença. Estimular a escuta, a empatia e a reflexão crítica antes da exibição do curta Eu não quero voltar sozinho (2010).

Habilidades da BNCC

(EM13CHS102) Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

(EM13CHS103) Elaborar hipóteses, selecionar evidências e compor argumentos relativos a processos políticos, econômicos, sociais, ambientais, culturais e epistemológicos, com base na sistematização de dados e informações de diversas naturezas (expressões artísticas, textos filosóficos e sociológicos, documentos históricos e geográficos, gráficos, mapas, tabelas, tradições orais, entre outros).

Mãos à obra

Inicie a aula dispondo a turma em uma roda de conversa. Apresente, aos estudantes, questões como:

- O que significa ganhar autonomia durante a adolescência?
- Em quais situações a escola favorece ou dificulta a autonomia dos jovens?
- De que formas as diferenças (físicas, sociais, culturais ou afetivas) aparecem e podem afetar o cotidiano escolar?
- Vocês acham que a escola está preparada para lidar com diferentes formas de amar, viver, aprender e se expressar?

Oriente os estudantes a responderem essas questões livremente, a partir das experiências e percepções de cada um. Busque estimular que eles valorizem a escuta e respeitem as falas dos colegas. À medida que as respostas surgirem, registre, no quadro, palavras-chave ou expressões recorrentes nas falas dos jovens. Caso surjam comentários baseados em estereótipos ou generalizações, o(a) professor(a) pode acolher a fala e, em seguida, problematizá-la por meio de novas perguntas, incentivando os estudantes a refletirem sobre outras formas de viver e perceber o mundo.

Para concluir esta etapa, diga que o grupo assistirá, em um momento posterior, a um curta-metragem brasileiro que, partindo da perspectiva de um adolescente cego, aborda as questões discutidas nesta atividade. Não antecipe os desdobramentos da narrativa, a fim de preservar o impacto da experiência audiovisual.

 

b) Câmera – Olhar para além da visão

Objetivos

Promover a leitura interpretativa de Eu não quero voltar sozinho. Nesse processo, estimular os estudantes a analisar a narrativa e os recursos da linguagem audiovisual. Incentivar que eles relacionem tal análise a temas como juventude, afetos, autonomia e convivência escolar.

Habilidades da BNCC

(EM13CHS501) Analisar os fundamentos da ética em diferentes culturas, tempos e espaços, identificando processos que contribuem para a formação de sujeitos éticos que valorizem a liberdade, a cooperação, a autonomia, o empreendedorismo, a convivência democrática e a solidariedade.

(EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais.

Mãos à obra

Realize a exibição integral do curta-metragem. Ao término da sessão, proponha um momento de conversa coletiva. Nele, retome as questões levantadas na atividade anterior e convide os estudantes a compartilharem suas impressões iniciais sobre o filme. Em seguida, conduza um debate a partir de questões orientadoras como: 

- De que forma o filme constrói o ponto de vista de Leonardo?
- Quais conflitos atravessam as relações entre Leonardo, Giovana e Gabriel?
- Que imagens de juventude e de afetos o filme apresenta?

Estimule os alunos a retomarem cenas específicas que justifiquem as interpretações que eles tiveram em relação às questões orientadoras. Chame atenção para as escolhas narrativas e estéticas do filme – como, por exemplo, o ritmo das cenas e a importância das expressões corporais na construção dos sentidos. Caso o debate acabe ficando concentrado apenas no enredo do curta, ainda assim é possível que o(a) professor(a) redirecione a discussão para a linguagem audiovisual – uma forma de fazer isso é elaborar questionamentos acerca da maneira pela qual o filme provoca sensações sem que necessariamente tenha de recorrer a explicações diretas.

Como atividade complementar, solicite que os estudantes registrem, por escrito, de forma breve, uma cena que consideraram significativa; que expliquem os motivos de tal escolha; e que discorram sobre os sentidos que atribuíram à cena selecionada. Esse registro pode ser utilizado como base para retomadas posteriores de determinados assuntos já abordados, ou mesmo para articulações com a atividade seguinte desta sequência didática.

Ao final, proponha a criação de um mural-retalho: ele deve ser inspirado na ideia de Eu não quero voltar sozinho ser construído com base em pequenos gestos e encontros. Cada estudante (ou grupo, conforme a escolha do(a) professor(a)) ficará responsável por produzir um “retalho” do mural. Cada retalho pode conter uma frase, uma palavra-chave ou um pequeno comentário para representar ou uma cena do filme, ou um sentimento/ideia que tenham sido despertados pelo curta. Os retalhos podem ser feitos em papéis de tamanhos e cores variadas, de forma que reforcem, visualmente, a diversidade de olhares que é possível ter sobre uma mesma obra. Após a produção, oriente que os estudantes colem seus retalhos em um grande painel coletivo, sem uma ordem pré-definida. O(A) professor(a) pode orientar a turma a observar como o conjunto de tais fragmentos constrói uma narrativa ainda mais ampla sobre adolescência, amizade e diferença.

c) Ação – Depois da última cena

Objetivos

Aprofundar e sistematizar as reflexões iniciadas nas atividades anteriores por meio de uma síntese crítica. Propor que tal síntese seja feita a partir de apresentações construídas de forma coletiva e do uso consciente de recursos tecnológicos, incluindo ferramentas de inteligência artificial (IA).

Habilidades da BNCC Computação

(EM13CHS401) Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos.

(EM13CO10) Conhecer os fundamentos da Inteligência Artificial, comparando-a com a inteligência humana, analisando suas potencialidades, riscos e limites.

(EM13CO14) Avaliar a confiabilidade das informações encontradas em meio digital, investigando seus modos de construção e considerando a autoria, a estrutura e o propósito da mensagem.

Mãos à obra

Retome, com a turma, os principais pontos levantados na primeira atividade, especialmente as ideias iniciais sobre adolescência, afetos, convivência escolar e diferença. Em seguida, recupere as interpretações construídas na segunda atividade – como, por exemplo, as cenas destacadas pelos estudantes e os elementos de linguagem audiovisual analisados. Na sequência, organize a turma em grupos e proponha a elaboração de uma apresentação em slides (de quatro a seis telas) que sintetize o percurso reflexivo realizado ao longo da sequência didática. Cada apresentação deverá conter:

- Uma ideia central levantada antes da exibição do filme.
- Uma cena do curta que tenha provocado aprofundamentos a respeito dessa ideia.
- Uma reflexão do grupo sobre o que mudou na forma pela qual os integrantes pensam os temas tratados após terem assistido ao filme.
- Uma pergunta ou provocação final dirigida à turma.

Como parte do processo de criação desses slides, os grupos poderão utilizar ferramentas de IA para auxiliá-los na pesquisa e na organização dos tópicos da apresentação. Oriente os estudantes a avaliarem as sugestões oferecidas pela IA de forma crítica, pedindo que justifiquem as escolhas feitas e registrem de que forma a tecnologia foi utilizada.

Ao final, os grupos deverão apresentar seus slides para a turma. O(A) professor(a) pode promover uma conversa de fechamento. Nessa roda, uma possibilidade é propor o desenvolvimento de comparações entre as sínteses apresentadas e destacar como o cinema pode contribuir para ampliar compreensões sobre temas importantes – dentre eles, juventude e diversidade –, como é o caso do curta abordado nesta sequência didática.

Dois adolescentes brancos, vestindo camisetas cinzas, caminham de braços dados. Um deles usa mochila marrom. Fundo desfocado com tons claros.
Eu não quero voltar sozinho (2010), de Daniel Ribeiro | imagem: divulgação

III. CORTA – INDICAÇÕES

Na IC Play, plataforma de streaming gratuita do Itaú Cultural (IC), é possível encontrar outros filmes que, tal qual Eu não quero voltar sozinho (2010), também exploram as temáticas da adolescência, da convivência, da diferença, das relações afetivas. Dessa forma, são obras que também têm a possibilidade de contribuir com a ampliação do repertório cultural dos estudantes – e que, nesse sentido, podem ser utilizadas como continuidade desta sequência didática, ou como ponto de partida para novos debates sobre juventude e cinema.

Nesse conjunto, destaca-se o longa-metragem Hoje eu quero voltar sozinho (2014) – versão expandida e aprofundada da narrativa apresentada em Eu não quero voltar sozinho e também dirigida por Daniel Ribeiro. Assim, o(a) professor(a) pode usar esse filme como referência não só para discutir processos de adaptação/expansão narrativa e debater as diferenças entre curtas e longas-metragens, como também para suscitar reflexões sobre o uso do tempo cinematográfico, o desenvolvimento de personagens e as escolhas de linguagem adotadas em cada um desses formatos.

Como desdobramento temático, é possível ainda que o(a) professor(a) articule a exibição de Hoje eu quero voltar sozinho à de outro filme que integra o catálogo da IC Play: Mãe só há uma (2016), dirigido por Anna Muylaert. Inspirado em um caso real, o longa acompanha Pierre, um adolescente que descobre ter sido roubado ainda bebê na maternidade e passa a lidar com as consequências emocionais do encontro com sua família biológica. Assim como faz a obra de Ribeiro, Mãe só há uma aborda processos de descoberta, deslocamento afetivo e construção da identidade juvenil; dessa forma, oferece mais um campo fértil para o desenvolvimento, em sala de aula, de comparações entre uma obra e outra e de debates sobre os temas de que elas tratam.

Por fim, se o(a) professor(a) quiser mergulhar ainda mais profundamente no cinema brasileiro e nas representações que ele propõe sobre a juventude, ele(a) também pode explorar os verbetes da Enciclopédia Itaú Cultural e, no site do IC, consultar críticas e materiais educativos sobre os filmes do catálogo da IC Play – conteúdos que complementam perfeitamente a experiência do CineAula IC Play.

MINIBIOGRAFIA DO ELABORADOR

Mateus Lôbo é doutor em sociologia e mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB). Ao longo de sua trajetória, tem atuado como professor em diferentes instituições de ensino. Atualmente, é professor de sociologia no Instituto Federal Goiano (IF Goiano).  

CineAula IC Play é um projeto do Itaú Cultural (IC) que consiste na publicação periódica, aqui no site, de sequências didáticas baseadas em conteúdos da IC Play – nossa plataforma de streaming gratuita –, com o objetivo de promover o diálogo entre educação e cinema a partir de diferentes temáticas e da linguagem audiovisual. A iniciativa prevê o desenvolvimento de materiais educativos para subsidiar o trabalho com filmes disponíveis na IC Play em sala de aula, bem como em contextos análogos, como cineclubes, oficinas e centros culturais, buscando, assim, estimular a fruição audiovisual e valorizar o cinema brasileiro. Além disso, pretende aproximar a arte e a cultura da educação básica, fomentar o pensamento crítico e criativo dos estudantes e estabelecer um diálogo contínuo com professores da educação básica. O projeto foi criado e é coordenado por Camila Fink, Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo.

Expediente desta sequência didática
Conselho editorial Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo
Autoria Mateus Lôbo (selecionado via edital)

Edição Bruna Martins (terceirizada)
Revisão Marina Nicoli Garcia e Rachel Reis (terceirizadas)

 
Confira aqui as sequências didáticas da primeira edição do CineAula IC Play.

Clique aqui e conheça as demais sequências didáticas da segunda edição do CineAula IC Play.

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