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Da floresta ao palco: “A ilha profana do Cantagalo” e a escrita cênica do gambá de Borba

Sob esse ritmo afro-amazônico, espetáculo do Grupo Jurubebas de Teatro propõe um mergulho na encantaria e nas denúncias sociais do interior do Amazonas

Publicado em 01/06/2026

Atualizado às 18:00 de 29/05/2026

Os sons do ritmo gambá de Borba – que ecoam nas beiras do Rio Madeira, interior do Amazonas – ganharam uma nova tradução no espetáculo A ilha profana do Cantagalo, projeto inscrito por meio de edital público para a edição 2023-2024 do programa Rumos Itaú Cultural e por ele contemplado. Proposta pelo Grupo Jurubebas de Teatro, a peça foi o resultado de uma imersão profunda na comunidade ribeirinha de Acará, no município de Borba (AM), unindo a pesquisa acadêmica de campo à mística das lendas amazônicas.

A equipe do Grupo viajou por mais de 24 horas de barco para residir durante 10 dias nessa comunidade, além de ter conduzido um processo de nove meses de investigação sobre o gambá de Borba. Por isso, o espetáculo – que coroa toda essa trajetória – não nasceu apenas do imaginário, mas de um verdadeiro deslocamento físico e espiritual. 

A figura central desse percurso foi o mestre gambazeiro Otávio di Borba. Com mais de 30 anos de dedicação ao ritmo, ele atuou como mediador cultural do projeto, dividindo saberes e construindo a trilha sonora que fundamenta a montagem. “Ter um mestre gambazeiro conosco é relevante por ele ser uma lenda viva do folclore e da música popular amazonense. É ele quem constrói nossa trilha a partir de sua pesquisa de décadas”, destacou Felipe Maya Jatobá, diretor do espetáculo.

 Glossário ancestral: o ritmo do gambá de Borba

 Para compreender A ilha profana do Cantagalo, é preciso adentrar o bioma sonoro do ritmo afro-amazônico gambá de Borba.

● Origem: nasceu do encontro entre os indígenas da etnia Mura e os cabanos (pessoas negras que fugiram da repressão no século XIX).
● Influências: foi influenciado por uma complexa partitura, que funde o tambor de mina, o ganzá e instrumentos indígenas como o trocano.
● Espiritualidade: os participantes, chamados de gambazeiros, honram São Benedito, integrando crônicas do cotidiano florestal à roda de dança.

A trama: encantaria e realidade social 

A narrativa acompanha a jornada de um menino que descobre ser neto de uma rasga-mortalha (lenda ligada à morte). A criança parte em busca de seus pais, que estariam em uma ilha encantada no fundo do rio. Embora a estética utilize elementos do Festival de Parintins e adereços que remetem à fauna (cobras e iguanas), o subtexto é rigorosamente sociopolítico.

A “ilha” que deu nome à peça funcionava como uma metáfora: na lenda, quem ouve sua música nunca mais volta; na realidade da pesquisa de campo, o grupo descobriu que tais narrativas muitas vezes velam violências reais, como feminicídios e LGBTQIAPN+fobia na região.

Trilhas de criação e descolonização 

O Grupo Jurubebas estruturou o projeto sob eixos que evitam o “olhar colonizador”, priorizando o pertencimento da comunidade de Acará no processo criativo. Os desafios dessa tradução cênica incluíram:

· Relação com a tradição: o trânsito da música e dança do Gambá para a linguagem teatral.
· Encantaria como religião: a ênfase nas práticas espirituais indígenas e ribeirinhas.
· Denúncia social: a transformação do mito em ferramenta de crítica sensível sobre os corpos do Norte.

Ao transpor os saberes do Rio Madeira para a cena, o coletivo não apenas documentou uma tradição, mas estabeleceu o teatro como um espaço de diálogo entre a ancestralidade e as urgências do presente. O projeto reafirmou a importância de descentralizar as narrativas amazônicas, permitindo que a própria comunidade do Acará se reconheça como protagonista de suas histórias e denúncias.

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