Repleta de cores e texturas, a obra combina ciência, humor e surrealismo, convidando o público a sair do “automático”
Publicado em 03/06/2026
Atualizado às 11:48 de 03/06/2026
por Gabriel Lopes
Deco Farkas, ou Deco Treco, é muralista, ilustrador, grafiteiro e animador, reconhecido por suas criações repletas de texturas, contrastes e cores vibrantes. Formado em artes plásticas, o artista conta ao Itaú Cultural (IC) que começou a desenhar após crescer em contato direto com as artes e se inspirar em muitos membros de sua família, principalmente nos desenhos de seu pai.
Deco trouxe para a fachada do IC a obra Trecae simequitotum, uma planta alienígena que chama a atenção por seus frutos “aquissostídeos” e suas folhas oblongas altamente porosas, mas que é inexistente – ou ainda não foi descoberta pela ciência. Inspirada em ilustrações de livros didáticos de biologia, a pintura revela algo especial nas criações do artista paulistano, que sempre adiciona uma pitada de humor e confusão em seus trabalhos. Ele espera que a intervenção cause um tilt na cabeça das pessoas hipnotizadas pela rotina.
Confira a entrevista na íntegra.
Como começou seu envolvimento e contato com as artes?
Acho que tudo começou com a minha família, porque boa parte trabalha ou já trabalhou no universo das artes. Meu avô foi um fotógrafo muito prolífico, que também produziu muitos filmes e esteve na vanguarda da fotografia brasileira em sua época, muito imerso no mundo das artes visuais e da cultura. Meu pai é designer gráfico e meu tio é fotógrafo. Então, enquanto eu crescia, sempre havia papel, caneta, lápis, tinta e aquarela por perto. Quando viajávamos, meu pai levava um bloquinho e eu ficava vendo ele desenhar. Assim, a arte sempre esteve presente. Eu cresci desenhando, e desenhava sempre que estava entediado. Isso é normal para uma criança, mas acho que ver meu pai desenhar me alimentava, não sei. Eu achava os desenhos dele incríveis; meu pai desenha muito. Enfim, foi a presença da minha família.
Você é formado em artes plásticas. O que o fez começar a criar em diferentes formatos e escalas, como bordados, ilustrações, muros, prédios?
Cara, na verdade, nada do que eu faço é uma grande escolha. Eu gosto de desenhar e pintar, e por isso acho graça em pintar grande ou pequeno. O bordado é superinteressante; a textura das linhas é uma linguagem que me dá muita vontade de explorar. Então, tudo que me interessa e me dá vontade de explorar, eu exploro sem muita expectativa. Por exemplo, comecei a bordar não porque pensava que seria uma forma de trabalho, mas sim porque achava mó legal. Se isso viraria um suporte ou não, eu não sabia. O grafite foi igual; comecei a pintar na rua, nem artista eu queria ser. Eu iria trabalhar com animação, tinha todo um caminho traçado, mas comecei a pintar na rua porque achava mó legal. Acho que, quando as coisas saem desse lugar da investigação, do prazer, da descoberta, do conhecimento e da vontade, a chance de chegarem a um lugar interessante é maior do que se fossem algo muito calculado. Pelo menos para mim, é assim que as coisas foram. As coisas vão tomando os próprios caminhos, certo?
Em suas obras, as cores e texturas são algo muito presente e marcante. Como você as define e como é seu processo criativo para realizar essas pinturas e bordados?
É bem de improviso, acho que às vezes você pinta com o que tem. Sei lá, gosto de usar cor, cor forte, saturada, então isso é uma tendência. E aí, conforme você vai trabalhando, às vezes se depara com uma situação, ainda mais na rua, assim: “Putz, não tem um vermelho, só tem o amarelo, e o amarelo caiu no chão e ficou com musgo”. Aí você vai usar o musgo e aprender quais cores contrastam de forma interessante com essa nova cor. Coisas que você não escolheria ter usado, mas acaba usando. Ou então, no ateliê, você está usando uma cor, ela suja com outra e você descobre um contraste interessante de cores. Sabe, é tudo meio acidental, assim, não é muito calculado, mas vou juntando o que me interessa para usar na minha comunicação.
Como foi o processo criativo da obra Trecae simequitotum, na fachada do IC?
Como o briefing era "jardins urbanos", fiquei tentando encontrar o que dessa temática tem a ver com o meu trabalho. Aí lembrei que adoro ilustrações de biologia, como aquelas que mostram uma flor por dentro ou uma célula. Dentro da célula, você vê a mitocôndria; você a abre e vê grânulo citoplasmático ou algo assim, sabe? Eu adoro essas ilustrações e essa linguagem. Então, eu junto isso com algo absurdo, uma planta que não existe. Pego apenas essa linguagem e brinco com ela, o que faz as pessoas ficarem em dúvida se é real ou não. Poderia ser uma planta real. As coisas da biologia, em nível celular, são tão bizarras que nem parecem reais. Acho que a brincadeira é essa. Brincar com o que é real, o que não é e o que poderia ser. É a dissecação de uma planta que não existe, mas que, ao mesmo tempo, poderia existir. Sabe? Esse é o caminho.
O que você espera despertar nas pessoas que entram em contato com sua arte?
Caramba! Ah, eu espero que sejam recebidas com uma sensação de não entender bem o que está acontecendo, de achar bonito, de ter um interesse estético, mas ao mesmo tempo dar um tilt na cabeça. “O que é isso? Como assim? Que planta é essa? Parece uma planta, mas não é. O que são esses pedaços dessa planta? Parecem tão científicos, mas ao mesmo tempo tão absurdos.” Então, eu quero que as pessoas só parem um pouquinho o caminho natural dos pensamentos para reorganizá-los, nem que seja por um segundo. E isso pode abrir espaço para que elas saiam do caminho hipnótico do dia a dia.
Como funciona a temática de suas obras? Percebo que algumas necessitam de um olhar mais atento para entender seus dilemas. Você acha que suas obras são algo semelhante ao nonsense ou que sua mensagem é nítida?
Ah, não! Não é nada evidente nem calculado, mas também não é aleatório. Se fosse, eu faria qualquer coisa, e tem dias que eu fico assim... Por exemplo, estou pintando uma Kombi aqui, dessas que têm um caminhãozinho ou um espaço atrás. E estou há dias pensando: o que vou colocar nela? Já tentei pedras e umas louças gigantes. E, por mais que pareça uma coisa meio idiota, não é aleatório. Existem algumas coisas que encaixam e fazem sentido para serem levadas na Kombi, outras não. Eu não sei exatamente o que quero comunicar; é mais um processo pessoal, no qual preciso achar o que funciona ou não neste universo onírico e surreal que eu crio.
Existe algum artista que o inspira ou já inspirou em suas obras?
Eu sempre falo de David Hockney, um inglês importante na história da arte. Ele já passou por vários movimentos artísticos, mas hoje em dia se dedica basicamente à pintura de paisagens. É algo lindo demais o contraste de cor. Eu aprendo muito com ele sobre textura. David Hockney me dá aulas e aulas. Gosto também de José Antônio da Silva e de Lorenzato, artistas que as pessoas costumam chamar de naïf, mas que foram super-reconhecidos. Gosto dos temas e das texturas deles. Além disso, também me interesso pelos grandes mestres da pintura moderna, tipo Van Gogh, Picasso, Cézanne e Matisse.
Como você entende a importância de a arte ocupar esses espaços públicos?
Acho que a arte, no espaço público, contribui um pouco para a sanidade do mundo. Sem arte, o mundo só seria um pouco pior. Acredito que ela tem o papel importante de não tentar vender nada, especialmente nos centros urbanos, onde tudo que vemos é uma tentativa de venda ou de comunicação imediata e rápida. Basicamente, é assim: ou tenta vender algo, ou quer comunicar algo que você deve entender rapidamente, como uma placa de trânsito. Tudo é feito para transmitir a mensagem instantaneamente. Então a arte está justamente no lado oposto dessa competição pela atenção. Ela só quer que você a olhe e, quem sabe, transforme um pouco seu olhar, fazendo você pensar em alguma outra coisa além do consumo ou de coisas funcionais e práticas. Ela faz com que as pessoas divaguem um pouco e viajem, o que é essencial para não nos tornarmos zumbis.