“Acre negro: os pretos que fizeram o Acre” recebe apoio do programa Rumos Itaú Cultural 2023-2024
Publicado em 16/07/2026
Atualizado às 15:18 de 17/07/2026
por Cristiane Batista
Para contar as histórias desejadas, falar sobre ancestralidade, sonhos e perspectivas para o futuro, Teddy Falcão escolheu cenários locais de pertencimento e intimidade dos entrevistados, como suas casas e quintais, seus locais de trabalho, o rio Acre, que corta a cidade, e a antiga rua África, atualmente denominada de 1º de Maio, no segundo distrito de Rio Branco e reduto da comunidade negra local. “Trata-se de uma jornada de redescoberta, reconhecimento e respeito pela herança negra que moldou e continua a enriquecer o Acre”, comenta Falcão. “O estado é conhecido pela forte presença das comunidades indígenas, nordestinas e sírio-libanesas, mas a história de ocupação negra tem mais de 100 anos, e sua influência ainda é silenciada no estado, com poucos registros”, completa.
Passado
O Acre só foi elevado à condição de estado brasileiro em 1962. Até a segunda metade do século XIX, era habitado por populações indígenas e fez parte dos territórios boliviano e peruano até 1903, quando foi anexado ao Brasil e se tornou território federal.
Ainda na década de 1870, começaram a chegar os primeiros migrantes e imigrantes, motivados pela exploração do látex, que passou a representar um dos mais importantes produtos de exportação do Brasil. “No período que chamamos de ciclo da borracha, recebemos negros escravizados fugitivos, ex-escravizados alforriados e afrodescendentes em busca de novas oportunidades na região. Queremos investigar de onde vieram, quando, como e o motivo de terem chegado ao estado”, afirma Falcão.
Entre as personalidades negras do passado, destacam-se, no filme, Pio Nazário, um dos combatentes da Revolução Acreana contra os bolivianos, cuja figura quase mítica é retratada no livro Histórias acreanas no miolo de pote (2018), do historiador Marcos Vinicius Neves, e Jofre Barbosa da Costa, mais conhecido como Da Costa, o “pedreiro-artista”, primeiro acreano a gravar, em 1973, um disco com músicas autorais de samba. “Entre seus sucessos está Acre querido, considerado um hino para o povo acreano”, conta o diretor. A letra da música fala de despedida e saudade. “Adeus, Acre querido / Rio Branco do meu coração / No meu peito mora uma saudade / Guardo de ti uma recordação”.
Presente
E hoje? Quem são e como vivem os negros nesse estado brasileiro de tríplice fronteira, com fuso horário de duas horas a menos em relação ao Horário de Brasília? Dados do censo de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que 66,3% da população acreana se autodeclara parda e 8,6%, negra. Entre os negros, houve um aumento de 67,1% em relação ao censo anterior, realizado em 2010.
“Nós deixamos de não nos vermos. A autodeclaração é um sinal de que eu me enxergo como preto ou pardo nesse ambiente. Eu não sou mais o “neguinho”, “aquele acolá”, o “café com leite”, o “moreno”. Eu começo a tomar um lugar nessa sociedade, reconhecido por quem sou, e isso é o mais importante”, diz o ator e diretor cênico acreano Ivan de Castela.
Acostumado a interpretar personagens diferentes de si e a atuar nas coxias, na preparação de outros atores ou na iluminação e na operação de som de espetáculos diversos, Ivan é um dos entrevistados em Acre negro. A gravação foi realizada no palco da Usina de Arte João Donato, lugar onde trabalhou muitas vezes. “Foi muito bom revisitar as minhas memórias, ainda mais sabendo que outras pessoas também estão compartilhando suas percepções sobre o tema. A dor do racismo pode parecer solitária, mas a luta antirracista não é. Pedir e dar ajuda nos fortalece”, diz Ivan.
Para Teddy Falcão, apesar dos números do IBGE, o Acre é um estado que ainda nega a própria cor. “O racismo aqui é cruel e violento, e as pessoas negras enfrentam desafios semelhantes aos encontrados em outras regiões, como discriminação, desigualdade de oportunidades, sub-representação em posições de poder e espaços de destaque”, afirma. E continua a reflexão: “Os movimentos sociais e culturais no estado têm trabalhado para combater o racismo estrutural e promover a igualdade racial, destacando a importância da cultura e da história negra na região. Mas, mesmo com esses esforços, ainda há muito trabalho a ser feito”.
Futuro
Cercada por seus livros, quadros e discos, no seu “território de bem viver”, como chama sua casa, Jayce Brasil, socióloga, educadora e membro do Movimento Negro Unificado, expõe, no documentário, uma vivência íntima, mas bastante comum para tantos brasileiros. “Tem sempre essa questão de você ser colocado em xeque sobre o seu fenótipo. Eu só comecei a questionar sobre a minha negritude já adulta, nos anos 2000. A gente tem um processo de formação muito colonizado e, até então, eu não me via como uma pessoa preta, mas como uma pessoa ‘morena’. Esse despertar foi muito importante [para mim]. Sou uma mulher amazônida, acreana, de pele preta”, relata Jayce.
Ela também destaca a maneira como se deu sua participação no projeto Acre negro. “A gente nunca é protagonista da nossa história, sempre tem alguém falando por nós. Então, é fundamental podermos contar a nossa própria trajetória, sem essa coisa pesada de ‘o que você acha dessa violência x ou y’. A ideia era saber de mim, quem eu sou, quem é a minha família, quais são os meus desejos e as minhas dificuldades, como foi entrar na universidade e chegar até aqui. Foi bonito me sentir humanizada e poder falar com o coração”, recorda a socióloga.
Jayce conta que, apesar da Lei nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, foi somente dez anos depois dessa obrigatoriedade, em 2013, que Rio Branco ganhou uma secretaria de Promoção da Igualdade Racial, sendo a primeira cidade da Região Norte a criar o órgão especializado. “Essa é uma discussão ainda muito nova, mas faço da minha vida, todos os dias, uma possibilidade de debater o assunto, levando a juventude refletir sobre as nossas histórias não contadas. Elas são de todos”, conclui a professora.