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“Encruzilhada” evidencia as barreiras de comunicação entre surdos e ouvintes

Espetáculo de dança encerra a programação do \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026.

Publicado em 08/05/2026

Atualizado às 14:48 de 08/05/2026

O espetáculo Encruzilhada promove a discussão sobre as barreiras de comunicação entre pessoas surdas e ouvintes. Ele nasceu a partir da pesquisa de mestrado de Elinilson Soares e chega neste domingo (10) ao palco do \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026.

“Como pessoa surda, sempre me vi em contextos sem acessibilidade comunicacional”, conta o artista, “no entanto, a comunicação sempre aconteceu, mesmo com a dificuldade. Neste trabalho, provoco as pessoas da plateia a se comunicarem comigo pela dança, pelo movimento”.

Homem negro de cabeça raspada está agachado em um palco de madeira sob um foco de luz circular. Ele veste túnica e calça brancas amplas e usa búzios na orelha esquerda. Seu braço direito está coberto por uma substância terrosa alaranjada, enquanto ele segura um pequeno vaso de cerâmica sobre uma bacia da mesma cor, posicionada no chão. O fundo é completamente escuro, criando um contraste dramático com as roupas claras e a cena ritualística. Ele mantém o olhar concentrado e solene direcionado aos objetos à sua frente.
Elinilson Soares (imagem: Rita Aquino)

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Inversão na comunicação

O nome Encruzilhada se refere a Exú, que no candomblé é a entidade que rege a comunicação. Essa inspiração é natural ao universo onde Elinilson se formou como pessoa - “[sou] homem, negro, surdo, nascido no bairro de Itapuã, em Salvador. Desde pequeno, sempre estive em festas de largo, blocos de carnaval, rodas de samba, e terreiros de candomblé”.

Na conclusão do Mestrado Profissional em Dança da Universidade Federal da Bahia, o trabalho foi não só aprovado, como “muito bem avaliado pela banca, constituída de profissionais experientes do contexto das danças afro-brasileiras, da cultura surda e dos estudos sobre as deficiências”, como ele mesmo conta.

Elinilson explica também que o tema das barreiras de comunicação com pessoas ouvintes é integral à sua experiência no mundo. “A maior parte dos trabalhos artísticos que eu assisto não tem acessibilidade”, comenta ele, “as pessoas precisam pensar sobre isso. Nós, pessoas surdas, temos os mesmos direitos das pessoas ouvintes - o direito ao acesso. Na obra Encruzilhada, optei por não ter intérprete de Libras, apesar de eu falar em Libras em duas cenas. A ideia é justamente provocar uma inversão. Como seria uma pessoa ouvinte sem acesso? A comunicação acontece! Mas eu provoco”.

Uma fotografia em plano médio, com fundo preto, mostra um homem negro, calvo e descalço, agachado em um palco de madeira. Ele veste uma roupa branca folgada e adornos na orelha direita. Seus braços e mãos estão manchados de um líquido marrom-alaranjado, enquanto ele olha fixamente para a palma da mão direita elevada. No chão, à sua frente, há uma tigela dourada ao lado de uma pequena moringa de cerâmica sobre um círculo desenhado com pó branco. A iluminação focal destaca o performer e os objetos ritualísticos
Encruzilhada, de Elinilson Soares (imagem: Rita Aquino)

Troca e acolhimento

No domingo (10), a apresentação de Encruzilhada no \\ENTRE\\ será seguida do bate papo Pulsações, mediado pela atriz, arte-educadora e poeta Nayara Rodrigues, com presença de Lucas Valentim, artista e professor da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia.

“Tenho circulado em muitos eventos onde as pessoas def são protagonistas”, comenta Elinilson, “temos nos encontrado e criado espaços de fortalecimento, de trocas e de acolhimento. Estamos avançando, mas temos muito ainda para transformar. Ainda são poucos os espaços como estes do \\ENTRE\\, se comparados à quantidade de eventos de arte no Brasil. E também ainda são poucos os espaços que têm a nossa presença como protagonistas”.

“Este evento reúne grandes artistas com deficiência no centro da cidade de São Paulo, evidencia seus trabalhos e fortalece nossa atuação como artistas. É um evento necessário e que apresenta outras perspectivas menos normativas para o tecido cultural da cidade. Precisamos nos encontrar, sim. Mas precisamos também estar em outros espaços com a mesma força de atuação das pessoas sem deficiência. Vocês têm muito o que aprender conosco”.

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