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Helena Ignez na IC Play: dois filmes que você provavelmente não viu

A jornalista Luísa Pécora escreve sobre “O grito da terra” e “América do sol”, obras que integram a “Retrospectiva Helena Ignez”

Publicado em 10/09/2026

Atualizado às 21:45 de 10/09/2026

por Luísa Pécora

Diante dos 22 filmes que integram a Retrospectiva Helena Ignez, na Itaú Cultural Play, é natural que o espectador busque algum tipo de guia – algumas recomendações do que assistir para conhecer as mais de seis décadas de carreira de uma artista única que, aos 87 anos, segue trabalhando como atriz, diretora, roteirista e produtora.

Tal guia certamente incluirá marcos do cinema brasileiro, como O assalto ao trem pagador (1962); clássicos do Cinema Novo, como O padre e a moça (1966); obras realizadas em parceria com Rogério Sganzerla (1946-2004), como A mulher de todos (1969); e os filmes que a própria Helena dirigiu, como A moça do calendário (2017).

Aproveito, então, para destacar dois filmes menos conhecidos que chegam ao streaming pela primeira vez graças à iniciativa da IC Play.

O primeiro é O grito da terra, de Olney São Paulo (1936-1978), que foi lançado em 1964, o ano do golpe militar. A trama contrasta a história de duas jovens mulheres que vivem no sertão da Bahia, filhas de agricultores pobres. Mariá, personagem de Helena, quer ajudar sua comunidade a enfrentar a seca e a exploração de comerciantes e latifundiários. Já Loli, interpretada por Lucy Carvalho, vê a batalha como perdida e busca uma forma de ir embora.

Na época do lançamento, O grito da terra foi alvo de censura e teve sua carreira limitada. Mais recentemente, o acesso era restrito pela falta de uma cópia digitalizada, que foi realizada agora, com o suporte da IC Play, a partir de matrizes em película guardadas pela Cinemateca Brasileira.

Outro filme da Retrospectiva Helena Ignez era não apenas raro, mas, de fato, inédito. América do sol, de Léo Duarte, foi rodado em 2000, de forma independente, numa parceria entre a produtora Plus Ultra e a Universidade Federal Fluminense (UFF). Os recursos cobriram as filmagens, mas não a finalização, realizada só agora, 26 anos depois, também com o apoio da IC Play.

Um carro vermelho aparece em primeiro plano, estacionado em uma estrada de terra à beira-mar. Ao fundo, montanhas e construções se destacam sob a intensa luz dourada do sol baixo.
América do sol (2026), de Léo Duarte | imagem: divulgação

A obra parte da descoberta de uma estranha criatura em águas brasileiras para brincar com a ficção científica e fazer crítica social. Numa participação breve, mas marcante, Helena reaparece como Sônia Silk, a protagonista de Copacabana, mon amour (1970), antológica até no nome.

Em seu icônico vestido vermelho, Sônia evoca tanto o Brasil que resiste quanto o espírito da Belair, produtora que Helena fundou com Julio Bressane e Rogério Sganzerla nos anos 1970. América do sol não está no mesmo nível dos filmes do trio, mas reflete o impacto de um cinema feito com poucos recursos e liberdade total.

Helena Ignez posa sorridente em primeiro plano, vestindo uma roupa curta de tecido vermelho brilhante. Ao fundo, um automóvel escuro aparece junto a uma grande estrutura de guindaste sob o céu azul.
Copacabana, mon amour (1970), de Rogério Sganzerla | imagem: divulgação

Playlist relacionada:

O grito da terra (1964)
Olney São Paulo
drama

Copacabana, mon amour (1970)
Rogério Sganzerla
experimental

A miss e o dinossauro 2005 bastidores da Belair (2005)
Helena Ignez
documentário

América do sol (2026)
Léo Duarte
ficção científica

>>Veja também:
Site da Ocupação Helena Ignez
O cinema livre de Helena Ignez
Helena Ignez – série +70
Helena fala sobre o encontro com Rogério Sganzerla

Luísa Pécora é jornalista e criadora do site Mulher no Cinema (www.mulhernocinema.com), dedicado ao trabalho das mulheres nas telas. Também ministra cursos sobre cinema e atua como curadora e jurada de mostras e festivais.

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