O cantor, compositor e multi-instrumentista foi um dos precursores da bossa nova
Publicado em 17/07/2023
Atualizado às 03:00 de 11/05/2025
João Donato, um dos maiores músicos brasileiros, morreu na madrugada desta segunda-feira 17 de julho, no Rio de Janeiro (RJ).
O artista nasceu em Rio Branco (AC), em 1934, e começou sua relação com a música ainda pequeno, aprendendo a tocar acordeom. Com 12 anos, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde passou a tocar em festas de colégio. Em 1949 integrou seu primeiro grupo musical, Altamiro Carrilho e Seu Regional, do compositor e flautista fluminense Altamiro Carrilho. Em meados da década de 1950, mudou-se para São Paulo, onde lançou seu primeiro disco, Chá dançante (1956) – produzido por Tom Jobim – com o grupo Donato e Seu Conjunto. Dois anos depois, passou a se dedicar ao piano, instrumento que alçou sua carreira a patamares internacionais.
Como pianista, João Donato correu o mundo, ao lado de grandes nomes da música brasileira, como João Gilberto e Elizeth Cardoso. Morou nos Estados Unidos por cerca de uma década, onde manteve contato constante com a cena musical de Los Angeles, tocando com orquestras de música latina e jazz. A influência desses ritmos se tornou um marco nas composições do artista.
Compôs em parceria com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Martinho da Vila, Cazuza, Jards Macalé, Joyce Moreno, João Gilberto e Tulipa Ruiz.
“Aproveitei bastante o meu encontro com João. Eu já era fã há muito, muito tempo. Desde que eu me dei conta como músico, desde que eu comecei a amar a música, eu já estava começando a ouvir João – os Joões, tanto o Donato, quanto o Gilberto – e tive a felicidade de estar com ele nesses últimos 3 anos, em que gravamos um disco juntos: Síntese do Lance. Compusemos juntos. Fiz temas instrumentais para ele, para gravar nesse disco. E aproveitei muito as risadas, as gargalhadas, o humor sofisticado do João, as frases inspiradas. Enfim, acho que fiz o meu PhD em música agora, com João Donato, um grande músico brasileiro.” Jards Macalé
O artista participou da série +70, do Álbum Itaú Cultural, em 2013. No vídeo abaixo, você pode conferir a entrevista para a série, em que João Donato fala de sua infância em Rio Branco e da adolescência no Rio de Janeiro, onde conheceu artistas do rádio e muito cedo se tornou amigo de grandes nomes, como João Gilberto e Tom Jobim. Além disso, relembra histórias de álbuns que lançou e viagens que fez.
Com Tulipa Ruiz, o pianista gravou o EP Tulipa Donato, em 2019, resultado de ensaios da turnê conjunta dos dois artistas. Já em 2021, o artista lançou o álbum Síntese do lance, com Jards Macalé, combinando influências do samba, do jazz, da bossa nova e de diversos outros ritmos latino-americanos.
“A trajetória de João Donato é impressionantemente bonita e uma referência. Desde que começou a ficar conhecido tocando seus acordes entre amigos, como João Gilberto e Tom Jobim, nos tempos da bossa nova, seguiu atuante e ativo como vimos recentemente ao lado de Jards Macalé no show Síntese do lance. Com seu trabalho, atravessou gerações com a naturalidade de quem compõe para as múltiplas facetas da vida. O Brasil perdeu mais um de seus importantes artistas, que contribui imensamente para a música brasileira e ajudou a torná-la ainda mais conhecida no exterior”, Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú.
João Donato também participou recentemente do álbum Dassalu (2023), da cantora Doralyce, na faixa “Plexo solar”. O disco – a segunda parte de um projeto musical afrofuturista iniciado com Dádiva (2022) – foi apoiado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2019-2020.
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Em mais de 70 anos de carreira, João Donato se consolidou como um dos maiores instrumentistas brasileiros. Irreverente, com um suingue e harmonia musical inconfundível, lançou mais de 20 discos. Foi companheiro e contemporâneo de muitos outros gênios da música, e se manteve atual, necessário e transformador, inspirando e construindo parcerias com as gerações mais jovens de artistas brasileiros.