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Luna Bastos traz "A natureza segue seu compasso" ao Itaú Cultural

Em sua segunda participação no projeto Arte urbana, a artista explora os ritmos do mundo natural

Publicado em 24/08/2026

Atualizado às 11:35 de 24/08/2026

 por Gabriel Lopes

A arte, o urbano, a floresta, a vida e os sentidos; todos se conectam na nova pintura que colore a fachada do Itaú Cultural (IC). A obra A natureza segue seu compasso, criada pela artista visual Luna Bastos, busca reestabelecer a conexão entre a cidade e o natural. Por meio de raízes que nos impulsionam em direção à vida, a artista convida o público a parar, respirar e sentir o ritmo da floresta antes de retornar à agitação imposta pela Avenida Paulista.

Em seus trabalhos, Luna explora diversas formas de arte, como pintura urbana, ilustração, bordado, escultura, muralismo e tatuagem. A artista, que já havia participado do projeto Arte urbana em 2019, com a obra Flores rompendo o asfalto, retorna ao IC com uma versão mais madura, confiante e repleta de novas referências.

Ela comenta que seu primeiro contato com a arte ocorreu quando ingressou no curso de psicologia, sendo inicialmente um hobby, não uma profissão. Hoje, graduada pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi), ela percebe diversas relações entre o estudo da mente e do comportamento humano e a arte, buscando evidenciar essa ligação em seus trabalhos.

Confira a entrevista na íntegra.

Como começou o seu contato com a arte? Quando ela te encontrou?

Acho que o meu contato mais direto foi com a arte pública, através de uma pintura pela qual passei. Estava observando e acabei participando de uma oficina de grafite. Então, o meu fazer artístico está muito atrelado à arte pública, e, obviamente, eu tinha contato com literatura, com artes visuais. Mas o que de fato me despertou para ser artista? Acho que foi esse contato com a possibilidade de dialogar com a cidade assim, de uma maneira mais direta. Através de imagens, enfim. 

E quando foi que você começou a pensar na arte como uma forma de trabalho? Isso sempre foi uma opção ou surgiu com o tempo?

Eu acho que foi uma relação que foi se construindo, porque eu comecei a pintar na mesma época em que entrei na graduação de psicologia. Então eu passei um tempo ainda em dúvida, ainda entendendo se esse poderia se tornar de fato o meu ofício, o meu trabalho, para além de uma forma de me expressar. Foi uma relação de anos até que eu pudesse entender que esse seria o caminho que eu seguiria enquanto profissional mesmo.

Você mencionou que estudou psicologia. Como foi esse seu processo, considerando que parecem áreas distantes? Você teve lutas internas? O que a psicologia acrescenta à sua arte?

De alguma forma, não foram tantos conflitos assim, porque acho que as duas coisas estão tão bem entrelaçadas no que eu faço, né? À medida que eu ia estudando sobre emoções, sobre o comportamento, sobre o corpo e sobre como o corpo expressa emoções, isso foi me motivando a desenhar. Foi me dando inspiração. E uma certa motivação para criar. Então a psicologia continua atrelada de alguma forma ao meu fazer artístico, ainda que eu não atue diretamente na área. É uma área que eu ainda estudo, mesmo depois de 12 anos.

Você produz arte em diferentes formatos: pintura em telas, em muros e em outras escalas, escultura, bordado. Como você começou a desenvolver todas essas atividades?

Nossa, acho que foi na pandemia, assim que eu senti a necessidade de voltar para as manualidades, para um outro tempo. No bordado, o tempo é diferente do tempo da pintura. A escultura, também, é lidar com a matéria viva, já que eu trabalho muito com madeira. Então eu sinto que cada área vai me ensinando alguma coisa e acaba contribuindo em outra. A escultura me ajuda a pensar a pintura; a pintura me ajuda a pensar o bordado. Esses saberes vão confluindo e se influenciando mutuamente assim.

Como foi o processo criativo da obra A natureza segue seu compasso, que você pintou no banco da fachada do IC?

Então, é curioso porque eu já tinha pintado o banco em 2019, que foi o meu primeiro ano em São Paulo, morando na cidade, ainda entendendo a arte como um trabalho. Foi bem nesse início, assim, de virada de chave. E foi muito legal poder voltar e poder olhar para esse espaço de uma maneira diferente, pensar o que é que eu faria diferente e como eu quero dialogar com esse espaço. Até porque minha visão sobre a cidade também foi se tornando uma outra, né? Entender como o estilo que eu tenho dialoga com o que eu sentia que seria interessante propor para o espaço. E dialogando com um tema, também, que está presente no meu trabalho, que é essa relação com a natureza. Então eu tentei pensar a produção muito como uma ocupação, como algo que se expande. Não como uma arte que tem que caber naquele limite do banco, mas como uma ideia que está ocupando, está se expandindo, está em contato com a avenida, com as pessoas que transitam e que param lá, porque é um ponto de parada. 

O quanto você sente que evoluiu e quais diferenças vê entre a pintura feita no banco em 2019 e esta de agora?

É engraçado porque eu percebo que tem temas que ainda permeiam a minha produção, como essa relação com a natureza e essa relação com o espaço. E acho que o que mudou, de fato, foi um certo amadurecimento. No sentido de entender de uma maneira mais nítida o que eu quero comunicar e como eu quero comunicar. Pensar no uso das cores, no que o espaço me pede, no que vai estar em equilíbrio... Enfim, acho que são mudanças sutis, mas significativas para mim.

E como você entende que A natureza segue seu compasso se conecta com os seus demais trabalhos? Como você sente essa pintura?

Nossa, eu fiquei muito feliz com o resultado, porque acho que tenho conseguido, de uma maneira cada vez mais consciente, me comunicar com o outro, sabe? Então eu tinha um certo intuito e, à medida que eu ia conversando com algumas pessoas, enquanto eu pintava, senti que aquilo que eu queria comunicar chegou para o outro. Ainda que tenha gente que vai ter uma interpretação a partir da sua própria vivência, né? Mas, por exemplo, eu tive muito cuidado com o uso das cores, com a forma, e mais do que trazer uma figura, eu queria trazer uma sensação para quem passasse por ali. Então eu senti que consegui chegar. Não consegui chegar num ponto específico, mas estou conseguindo me aproximar cada vez mais daquilo que eu quero comunicar, sabe? Visualmente. Então, a cor, a relação entre os tons de verde, ainda que simples, foi pensada com muito cuidado para chegar num certo contraste, para trazer uma sensação de folha que ao mesmo tempo é uma raiz. Então cada elemento foi pensado com muito carinho, muito cuidado.

A Avenida Paulista é um lugar muito movimentado, com muita gente passando o tempo todo. Como foi pintar em público? E como você entende a importância de a arte ocupar esses espaços?

Foi curioso porque foi quase uma mediação enquanto a obra estava sendo construída, sabe? Era curioso alguém falar: "Ai, está lindo! Pena que daqui a dois, três meses vão mudar, né?". Aí eu fui conversando sobre a importância da renovação, que, de alguma forma, faz parte do ciclo da natureza essa renovação constante assim. Então foi legal poder ir mediando enquanto construía o mural, dialogando sobre beleza, respiro, natureza, mudanças. Foi bem interessante.

Mas foi muito curioso, porque a produção no ateliê, de alguma forma, é mais solitária, né? E, quando eu estou pintando também grandes suportes, grandes murais, o contato com a rua não é tão direto. Então foi muito legal poder me reconectar com essa troca que se constrói assim, enquanto estou pintando, de poder aprender, de poder ter algum um exercício de alteridade, uma certa empatia com as pessoas que transitavam. Porque é um ambiente muito diverso. Então, foi quase como cair a ficha do impacto que a arte pública tem. Porque você não tem ideia de quem ela vai alcançar. E eu percebi de uma maneira mais direta como alcança desde a criança até o idoso, o adulto, a pessoa que já tem um repertório artístico e a que ainda não tem um contato tão consciente com a arte. Então foi muito rico poder ter essa troca tão diversa.

O que você espera que as pessoas sintam ao ver sua obra na Avenida Paulista?

É engraçado porque, enquanto pintava, percebi que era uma coisa da qual eu, de alguma forma, também precisava quando estava ali. Porque quando você está na Avenida Paulista, tem um certo ritmo que é quase imposto. E é muito difícil conseguir equilibrar isso, né? No primeiro dia, eu percebi que estava muito mais entrando nesse ritmo acelerado do que no ritmo de equilíbrio e de conexão que eu estava propondo. Então foi uma coisa de pensar de fato em voltar para o que eu quero comunicar, para que isso me guiasse durante a pintura. Mas acho que também fui percebendo que, para além de ser um espaço de travessia, é um banco em si. É uma pintura quase viva, né? Porque as pessoas interagem com ele. E é um momento de respiro nessa travessia. Então acho que isso diz muito sobre o que eu queria comunicar: essa sensação de conexão, de uma certa pausa, de um respiro, de poder habitar a cidade num outro ritmo.

Por fim, quem são as pessoas ou referências que mais te inspiram nas artes?

Nossa, nem vou citar nomes porque toda vez eu acabo esquecendo algum. Eu fico: "Nossa, poderia ter falado...". Eu gosto muito da ideia da arte visual dialogando com outras plataformas, com outros meios de comunicação. A literatura me inspira muito. A música me inspira muito. Então acabo recorrendo à construção de imagem como uma forma de comunicar e, de certo modo, dialogar com algo que eu li, com algo que eu ouvi. Uma música me remete a uma sensação, aí eu penso em como posso transformar essa sensação numa imagem. Então tem muito esse movimento de buscar em outras fontes uma certa inspiração. Além da própria vida, né, que acho que inspira muito também.

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