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O Norte como centro pulsante

Projeto “Frete grátis para todo Norte, exceto para o Brasil” propõe reflexões sobre visão preconceituosa e estereotipada em relação à região amazônica

Publicado em 15/07/2026

Atualizado às 16:54 de 14/07/2026

“Roraima? Onde fica mesmo?”: a simplicidade dessa pergunta opõe-se à complexidade das possíveis respostas a ela. Algumas pessoas não saberão o que responder, e a falta da resposta é complexa – sobretudo porque esconde um tipo de visão nublada, que invisibiliza e estereotipa o Norte do país. Com os objetivos de tensionar esse paradigma, suscitar provocações sobre ele e estimular a redefinição do olhar sobre o Norte, os artistas Eliakin Rufino e Pérola (ou Rafael Pinto) se reuniram num coletivo para realizar o projeto Frete grátis para todo Norte, exceto para o Brasil – um dos selecionados pela edição 2023-2024 do programa Rumos Itaú Cultural.

Pérola – que é artista, arte-educador e natural de Ilhéus (BA) –, conta que, desde que se mudou para Roraima, passou a escrever sobre o incômodo que sentia em relação a algumas dificuldades impostas pela localização de tal estado no contexto brasileiro: mobilidade aérea prejudicada, atraso em entregas e outras exclusões de Roraima por parte de serviços que prometem atender a todo o país. Em seu caderno de anotações – chamado por Pérola de “caderno de rancores” –, ele diz que incluía tanto o inconveniente olhar exotizado sobre o Norte, segundo o qual cobras e onças andam pelas ruas e “desfilam em shoppings”, bem como o fato de haver poucos artistas nortistas circulando por outras regiões do Brasil.

Essas reflexões encontraram as de Eliakin Rufino, cuja produção artística vai na mesma direção: expor as assimetrias regionais existentes no país e os estereótipos sobre o Norte. “Eu pensei: esse projeto não pode ser só meu; eu preciso incluir pessoas que estão pensando a Amazônia, e principalmente uma Amazônia que às vezes é pouco discutida – a Amazônia urbana’. Estamos em diálogo com a mata, com a floresta, mas em um ambiente urbano, o que às vezes é negligenciado”, diz Pérola.

Eliakin havia publicado, nas redes sociais, o poema “Brasil profundo?”, que acabou chamando a atenção de Pérola. O manifesto poético é uma crítica àqueles que utilizam o conceito de “Brasil profundo” para se referir às regiões distantes dos grandes centros urbanos:

[...] Brasil profundo somos nós
Nortistas, indígenas
Quilombolas, caboclos
Ribeirinhos, povos da floresta
Somos vistos com desprezo
Tratados como estranhos
Olhados com desdém
“É parecido com a gente”, dizem os mais condescendentes
Nem parece que é do Brasil Profundo
Ele é tão inteligente
Sussurram entre dentes
Quem inventou o Brasil Profundo
Nada na superfície de um Brasil colonizado […]

 

“Eu escrevi [Brasil profundo?] reagindo à humilhação moral, social e cultural que esse conceito carrega”, explica Eliakin. “Algumas pessoas ficam contentes com a alcunha, contentes em fazer parte do Brasil profundo. O Frete Grátis é uma recusa a naturalizar a ofensa”, completa.

Eliakin e Pérola também confrontam a ideia de uma Amazônia apagada e sem particularidades. “Quem vai ao Pará, quem vai ao estado do Amazonas, quando chega, se depara com uma outra realidade, assim como deve ser no Acre, em Rondônia”, destaca Pérola. Assim, o trabalho – em defesa das muitas Amazônias – tensiona a visão de uma Amazônia única.

Frete grátis para todo Norte, exceto para o Brasil é um projeto multimídia que dialoga com as reflexões sobre o Norte do país e se coloca no mundo de diversas maneiras - desde projeções mapeadas e lambe-lambes, até performance de poesia falada. E uma coisa é certa: o local dessa ebulição artística é sempre a rua. “Nosso trabalho não é um trabalho para galeria. Quanto mais pessoas [forem] sensibilizadas pela obra, melhor. A gente quer espalhar Frete grátis, fazer dele uma campanha de fato”, conta Pérola.

Povoam paredes de casas e prédios as frases “Respeite as Amazônias”, “A mobilidade da Amazônia é voar entre mundos”, ”Atualização pendente: O Brasil precisa reiniciar”, além de uma grande bandeira com o nome do projeto. Tendo, como trilha, uma potente poesia sobre como deslocar o Norte para o centro, o coletivo formado por Pérola e Eliakin – e também por João Biase e Ykaro Amorim – lançou Frete grátis para todo Norte, exceto para o Brasil no espaço Catitú, em Boa Vista (RR), em abril de 2025.

Nesse processo, o registro audiovisual foi uma ponte para que ainda mais pessoas pudessem ter contato com o trabalho. Segundo Pérola, “boa parte de nossas produções não têm muito alcance, e o audiovisual é um suporte importante para fazer circular o material”. Dessa forma, a população pôde conhecer a obra, e a ideia dela, ser espalhada. “A bandeira do Frete Grátis foi hasteada no Museu de Arte do Rio (MAR), por exemplo. Conseguiremos fazer parte do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, no ano que vem. Eliakin participou do TED Amazônia”, comemora o artista.

Na visão de Eliakin, um dos grandes desafios  do projeto é tratar de uma visão que está tão arraigada na cabeça das pessoas, ou, nas palavras dela: “A gente ousar desafiar esse pensamento que já estava colocado, que parecia intocável”. Apesar disso, o trabalho teve uma grande aceitação por parte do grande público – muito maior que a rejeição. E, assim, Frete grátis para todo Norte, exceto para o Brasil caminha pelo mundo.

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