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Para Gio Elefante, arte é “reparação histórica” em nível pessoal

Músico pernambucano leva seu show para o \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026

Publicado em 08/05/2026

Atualizado às 14:39 de 08/05/2026

“Difícil admitir que eu procurei ser invisível até pra mim”, canta Gio Elefante na música Meu desenho. Sendo essa a última faixa do disco Eu sou Gio Elefante (2024), ela encerra o álbum em um tom de final feliz, mesmo com sua melancolia, ao expressar que o artista vive hoje outro momento em sua relação com o próprio corpo.

O videoclipe da canção, dirigido por Giovanni Venturini, coloca o músico pernambucano para interpretar seus versos ao lado de outros artistas def que também entendem, cada um à sua forma, a autoaceitação cantada por ele. “É importante estar com pessoas que também sentem na pele essa experiência, que entendem o que isso significa na minha história”, explica Gio.

Na sexta-feira, 08 de maio, ele apresenta seu show como parte da programação do \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026. A proposta é comentar a dor da inadequação sofrida por muitas pessoas com deficiência e a jornada até um novo momento, pautado pelo empoderamento de ser quem se é.

Retrato de um homem de pele parda, com cabelos crespos volumosos e barba densa e escura. Ele olha diretamente para a câmera com uma expressão serena. Veste uma camisa de linho em tom verde-limão vibrante. No centro do pescoço, possui uma pequena tatuagem escura. O fundo é branco e minimalista, destacando a textura do tecido da roupa e os detalhes do rosto. A iluminação é suave e frontal.
Gio Elefante (imagem: Will Mattos)

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Estratégia de ocultação

Muito antes de ser Gio Elefante, Sérgio Luiz Bezerra de Lima Júnior começou a se interessar por música aos 12 anos, quando teve sua primeira banda. Pouco tempo depois, aos 16, viveu um episódio muito emblemático em sua história nos palcos e para além deles.

“Eu tinha um amigo que era o líder da banda, embora eu também fosse vocalista”, relembra o músico, “e ele sugeriu, sob um argumento de ‘estética’ do nosso segmento musical, que eu cantasse com o braço para trás. Naquele momento, não vi nenhuma maldade nem nada do tipo assim. Nas poucas apresentações que fizemos, sempre lembrava do que ele disse e escondia o meu braço deficiente”.

Gio logo esclarece que esse amigo da adolescência não é nenhum vilão em sua história, mas o símbolo de um olhar de nossa sociedade que sempre o acompanhou, inclusive em sua própria arte - “não tratar esse tema nas músicas também era uma estratégia de ocultação”, em suas palavras. Foi só na idade adulta, por encorajamento de sua parceira e produtora Paula Marques, que ele revisitou essas questões por meio da criação musical. 

“Foi com meu processo de composição que entendi que aquele momento foi uma tentativa de ocultar quem eu era ao esconder essa minha parte, que é a deficiência”, conta ele, “e é muito interessante pensar que é essa mesma deficiência que me permite estar hoje nos lugares onde estou, como o palco do \\ENTRE\\. Foi o meu braço que me trouxe até aqui”.

Retrato em close-up de um homem de pele clara com um volumoso cabelo crespo em estilo black power e barba cheia e escura. Ele tem olhos claros e um leve sorriso, olhando para o lado e para cima com uma expressão serena. Veste uma peça de roupa em tom verde-limão claro. O fundo está desfocado, sugerindo um ambiente externo com vegetação e tons esverdeados e terrosos. A luz é suave, destacando os detalhes de sua expressão e a textura dos fios de cabelo
Gio Elefante (imagem: Will Mattos)

Lugar de artista

Meu desenho é um ícone desse processo de autoaceitação, e seu videoclipe marca também um novo momento artístico para Gio Elefante. “Eu era completamente iletrado no mundo def”, explica o músico, “e conhecer Giovanni Venturini foi um divisor de águas para mim. Além dele ser uma liderança natural, ele sintetiza esses assuntos de uma maneira brilhante, tanto pelo que ele entende em termos de experiência quanto pelo lado intelectual. Só de conviver com ele, você já entra em contato com muitas coisas do universo def”.

O vídeo traz performances de Catharine Moreira, Fábio Passos e João Paulo Lima, além do próprio músico. “São artistas brilhantes que conheci por causa de Giovanni”, conta ele, “e essa potência toda estava totalmente alheia a mim”.

“Acho que o impacto do contato com eles não vem do ponto de vista da criação musical, que nunca foi uma grande questão para mim. Mas a minha incapacidade de viver nesse lugar do artista é muito mais relevante - o que resultou em não ter levado adiante muitas das minhas criações no passado. A partir de agora, isso certamente vai me impactar criativamente, mas vai impactar muito mais na minha segurança em me colocar nesse lugar do artista”.

Um homem de cabelos crespos e camisa verde-limão está sentado em um jardim com diversas plantas ao fundo, incluindo uma costela-de-adão. Ele segura, na altura do peito, uma fotografia impressa de si mesmo na mesma pose e ambiente. Em seu braço direito, uma tatuagem colorida é visível. O cenário externo tem tons de verde e paredes rústicas, criando uma composição de
Gio Elefante (imagem: Will Mattos)

O diálogo acontece

O show que será apresentado no \\ENTRE\\ se concentra no repertório do disco Eu sou Gio Elefante e no EP Das coisas boas (2020), “com umas três surpresinhas”, comenta Gio, “que são versões de canções famosas dentro da minha linguagem musical mais pop”. Luccas Maia, produtor do álbum, estará presente em beats, programações e guitarra, além de assinar a direção artística do espetáculo. 

Gio conta que tem observado suas composições tocarem diferentes públicos, como pessoas sem deficiência, pelos mesmos temas de inadequação de Meu desenho, por exemplo. “O diálogo acontece também com quem não é def”, explica, “principalmente depois que sabem o que foi que me motivou a escrever aqueles versos”.

Em um evento como o \\ENTRE\\, é a oportunidade de dialogar ao vivo com outros artistas def. “Isso tem um impacto muito grande, o de recuperar a dignidade perdida”, nas palavras dele, “é uma reparação histórica com o garoto de 16 anos que precisou esconder o braço para cantar”.

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