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Reconstruindo transmasculinidades

Por meio de um universo fantasioso e onírico, os roteiros da minissérie “Sonho, um inferninho” abordam temas que atravessam a realidade dos corpos transmaculinos

Publicado em 30/06/2026

Atualizado às 14:41 de 30/06/2026

por Maria Clara Matos

Com delicadeza e humor, temas como amor, violência e sexualidade povoam os roteiros e abrem espaço para as complexidades e os desafios de corpos dissidentes. A minissérie de três episódios Sonho, um inferninho – projeto de Recife (PE) contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2023-2024 – apresenta personagens e histórias próprias do universo onírico, mas que são completamente atravessados pela vida real de corpos transmasculinos. A ficção torna-se estratégia para propor um mergulho profundo na realidade.

“Esses corpos ainda sofrem apagamento. Minha maior motivação é passar informação, alcançar as pessoas para que elas compreendam os nossos corpos”, diz Hanna Godoy, roteirista e diretor da minissérie. Ele também destaca a importância de a obra ser escrita por uma pessoa trans: “Isso é fundamental, porque não é um corpo cis falando sobre um corpo trans [...] eu percebi que fazem total diferença as coisas que me emocionam, que me comovem e que eu considero importante dizer [...] coisas [que] passam despercebidas pelas pessoas cis, por mais sensíveis que elas sejam”.

O processo de construção da minissérie teve início com uma viagem da equipe para São Paulo (SP), onde seria possível encontrar uma pluralidade de pessoas transmasculinas e onde haveria a possibilidade de coletar referências visuais para a criação dos episódios, já que uma característica importante do projeto era que a direção de arte acompanhasse todo o processo de criação. “Lá frequentamos acervos, museus, exposições, espetáculos, casas de shows, ruas e espaços que fazem parte de um roteiro LGBTQIAP+. Encontramos jovens transmasculinos de todo o Brasil, transvestigêneros de todas as gerações e raças”, elenca Hanna. Esse foi o ponto de partida para a criação dos roteiros, assinados também pelo dramaturgo e diretor de teatro Dadado de Freitas e com contribuições do roteirista Hilton Lacerda. A direção de arte ficou a cargo de Monica Pantoja.

Sonho, um inferninho tem como protagonista Chicão, um jovem de 19 anos, homem trans negro e que vive na periferia de Recife. Diante dos conflitos com a mãe, ele sai de casa e é acolhido por uma travesti na terceira idade, Serena Quilomba. Tempos depois, a mãe biológica retorna à vida do filho para entregar a ele uma notificação judicial que diz respeito à herança de um pedaço de terra que seu pai falecido havia deixado. Chicão parte em uma viagem pelo interior pernambucano, mas um incidente no percurso faz com que ele chegue a uma cidade chamada Solidão, onde conhece João e Caio. Os dois apresentam a ele a boate Sonho, uma casa de shows, cabaré e inferninho, onde impera a fantasia. Nesse espaço, Chicão encontrará não só novos amigos, mas outras possibilidades de existência.

A pergunta que fica é: a viagem de Chicão é real? Sonho existe ou é apenas imaginação? Hanna conta que a viagem é um mergulho no subconsciente de Chicão e que todos os personagens, artistas e frequentadores da Sonho representam, na verdade, as grandes perguntas que habitam o interior dele. “Eu tentei ampliar ali todas as questões que poderiam atravessar um corpo transmasculino”, conta o roteirista, que revela que uma referência importante para a criação da atmosfera do espaço Sonho foi o livro O parque das irmãs magníficas, da autora argentina Camila Sosa Villada. O romance – entre o documental e o realismo mágico – conta sobre o encontro e o convívio de Camila com um grupo de travestis na cidade de Córdoba, nos primeiros anos depois de sua transição.

A minissérie não deixa de lado temas que atravessam a realidade do corpo trans. “Não tem como negar a violência, ela vem junto com o corpo trans. Parece que uma coisa não se descola da outra”, diz Hanna. Alguns episódios abordam, por exemplo, uma tentativa de estupro e suicídio: “Mas tudo tem um propósito, a violência não é gratuita, e a gente tratou com muita delicadeza”. E, muito embora sejam abordadas questões densas, quase inerentes ao corpo trans, o roteirista conta que a série foi pensada e desenvolvida com uma proposta de ser leve e carregada de humor. “Isso foi proposto desde o argumento”, afirma.

Sonho, um inferninho teria algum traço autobiográfico? Hanna responde que em partes. “O Chicão tem 19 anos e eu sou de outra geração, embora quem me conheça intimamente me veja [nele] em alguns momentos. Tem muito de mim, mas não só de mim. Há assuntos que me emocionam, mas [a minissérie] não tem a ver comigo.” O roteirista destaca, ainda, que muito da criação veio da intensa pesquisa realizada durante todo o processo de construção de personagens.

Esse mergulho na vivência de corpos trans revelou episódios que são dedicados, sim, às pessoas trans, mas também ao público em geral, não descolado do universo de compreensão e sensibilização de qualquer pessoa, segundo Hanna. Essa talvez seja uma das grandes potências de Sonho, um inferninho.


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